segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Conversas no supermercado aqui do burgo




Não sei se é da minha cara de estrangeira, se tenho um ar afável ou se é, afinal, uma coisa comum, mas as minhas idas ao supermercado traduzem-se sempre em longas conversas com os funcionários da caixa. Eu nem alimento a coisa — até porque o inglês deles é qualquer coisa do outro mundo — mas eles falam, falam, falam…

Diálogo 1

Lembro-me de, em Janeiro, num dia de muito calor, ir ao supermercado com um vestido de praia suficientemente arejado para se ver a parte de cima do biquíni. A funcionária da caixa mira-me como se eu fosse um extraterrestre:

— É nadadora?
— Não, mas sei nadar, sim. Porquê?
— Estou a ver que está vestida para ir nadar.
— Está muito calor, vesti-me como se fosse um dia de praia.
— Calor? Está assim tanto calor?

Nisto, eu observo-a com mais atenção. Esta funcionária tinha a farda do supermercado, mas como calor é coisa que não assiste a maioria desta gente, a farda consistia em, apenas, saia com meias opacas, camisa e camisola de lã.
— Pois, sabe, é que eu venho da Europa.
— Ah, pois…


Diálogo 2

Novamente, na caixa, a «despejar» artigos do cesto, em que se incluía um conjunto de cabides.
 
— Ah, é a senhora dos cabides!
— Desculpe?
— Sim, é a senhora que costuma vir comprar cabides.
— Hummmm, não me parece. Nunca tinha comprado cabides aqui no supermercado.
— Olhe que eu acho que sim. Fui eu que a atendi.
— Olhe que eu tenho a certeza de que está a confundir-me com outra pessoa.
— Não me parece. Gosta de comprar cabides?
[F&%$#%$] Não se trata de gostar, preciso deles.
— São cabides muito bonitos.


Eram cabides brancos, do mais básico que há. Que raio!

 

Diálogo 3

A funcionária, a passar os artigos pela registadora…
— Já pensei em experimentar este desodorizante.
— Pois… é bom.
— Já olhei para ele várias vezes, e há muitas senhoras que o compram, mas nunca o experimentei.
— Pois…
— Eu uso sempre da marca X, com cheiro a Y… [neste momento, já os meus ouvidos tinham bloqueado, embora continuasse a sorrir.]
— Ah, e estas empadas têm bom aspecto!
— Espero que saibam ainda melhor!
— E de galinha e cogumelos, ainda melhor! Havia mais?
— Sim, havia mais.
— De galinha e cogumelos?
— Hummm… Acho que também havia de carne de vaca. E caril.
— Ah, mas estas são as melhores. Eu das outras não gosto.

Já as empadas estavam no saco e ela continuava a falar das ditas cujas…

— Ah, e estas barritas parecem deliciosas!
— Ahã.
— Estou mesmo desejosa de ir para casa.
— Pois, imagino.
— Quem me dera que os clientes se fossem todos embora. Já.
— Pois, se me deixar pagar, eu prometo que vou embora. Já.
— Isto hoje até está calmo [De 20 caixas, nem metade estava, abertas e não havia fila em nenhuma.] É que hoje é noite de cinema. Amanhã vai ser um dia muito movimentado.
— Mas olhe que é sinal de que tem emprego. O desemprego na África do Sul é muito elevado.
— Se calhar tem razão.
— Tenha uma boa noite…

 

Diálogo 4

Comprar álcool exige sempre alguma logística. Ou vou ao centro comercial ao sábado ou saio do escritório às 17h e faço 10 km até à liquor store mais próxima, antes que a loja feche às 18h. Apesar de ser perfeitamente legal, nunca deixo de sentir que estou a cometer um crime quando de lá saio «abastecida» … Até porque venho sempre com 1 pack de 6 cervejas e/ou cidra, e 2 ou 3 garrafas de vinho Na última deslocação, o funcionário, já na caixa…

— Tanta gente que dizia que estes sacos do Pick n Pay não serviam para nada! [Sacos tipo Pingo Doce, reutilizáveis.]
— Claro que dão jeito!
[Analisando o conteúdo do saco.] Mas olhe, Miss, tenha calma. Não beba tudo de uma vez, take it slow.
— Ah ah, não se preocupe, só bebo uma de cada vez.


No escritório, dizem que tenho um ar angelical e sou quase demasiado bem-educada, politicamente correcta, etc. Mas há momentos em que isto me parece quase surreal.

3 comentários:

  1. hahahaha adorei a do cabide. também tenho várias dessas histórias li as suas e fiquei lembrando das minhas. qualquer dia te conto. da pra fazer um blog so disso lol

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  2. Se eu conseguisse de parar de rir… O escritório aqui em London Town bem queria ler mas eu já chorava de rir e traduções…zero! Para mim agora serás sempre a menina dos cabides e acima de tudo super nadadora! Bahahahaa..

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  3. Carol, em 10 anos, deves ter muitas histórias mesmo! E bem giras! Tens de partilhar :-)

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