terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

E tu, tens saudades minhas?


Na sexta-feira, bem ao final do dia, e depois de uma semana algo peculiar, recebo um email de Portugal que terminava desta forma:

Beijos, beijos, de muita saudade, mas muito orgulho. ***

 

Pouco mais de 24 horas depois, alguém me abraçou e disse:

Vou ter muitas saudades tuas.

[E se o álcool é o soro da verdade, não tenho razões para duvidar da veracidade da afirmação!]

 

Apercebi-me que, com excepção da minha mãe e dos meus meninos da catequese, há muito tempo que ninguém me dizia ter saudades minhas.

Não me estou a queixar - e desde já as minhas desculpas se estou a esquecer-me de alguém - é apenas um desabafo de quem está longe...

Estas duas pessoas não sabem, nem vão saber, mas tornaram o meu fim-de-semana ainda mais especial.
 
 
 

Constatações de um sábado à noite

As discotecas são o mesmo em qualquer canto do mundo. Homens e mulheres comportam-se da mesma forma. E eu nunca deixarei de parecer uma adolescente tontinha sempre que oiço Bryan Adams e Bon Jovi.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O contacto com os «locais» (com meses de atraso, eu sei, mas o texto até foi escrito assim que cheguei de Luanda)


Se há coisa de que gosto quando viajo é de interagir com os «locais». E fora da Europa essa interação ganha contornos ainda mais interessantes.
Comecei a rir, literalmente, à chegada a Luanda. Depois de uma eternidade na fila para verificação do passaporte, aproximei-me do guichê com um sorriso na cara. Não me recordo se estava assim tão feliz com a vida, mas o meu rosto parecia reflectir isso mesmo. O jovem que me atendeu pegou no passaporte e disse:

— Que bom ver tanta alegria no rosto.
— Olhe, como dizem no meu país, tristezas não pagam dívidas.
— Mas a alegria também não.

Pronto, vi logo que ia ser uma semana divertida. (Mas o jovem tem razão.)

 
O hotel não correspondeu bem às nossas expectativas e tivemos algumas dúvidas quanto a actividades paralelas e quiçá ilícitas que pareciam estar a decorrer em alguns quartos, especialmente no segundo andar. Mas como estávamos lá através da Embaixada Britânica e os funcionários mostraram-se bastante disponíveis desde o primeiro minuto, não insistimos na mudança e fomos fechando os olhos a algumas coisitas. No entanto, houve um episódio na primeira noite que marcou o resto da minha estadia…
Um amigo de Cape Town estava também em Luanda e ainda não tinha tido oportunidade de falar com ele. Como a rede wireless nos quartos não funcionava, desci ao lobby para poder estabelecer contacto via WhatsApp (com ele e com colegas de Cape Town). Estava eu muito bem agarrada ao meu telemóvel e aproxima-se de mim um «local», vindo do bar/restaurante:

— És tu que és a artista?
— Não.
— Tu não és a artista portuguesa que vem aqui cantar?

— Não.
— Tens a certeza.
— Pois claro que sim, tenho a certeza.
— Tu sabes que Angola e Portugal… Nós somos todos irmãos.
— Pois… [Por esta altura, acho que já me tinha chegado ao nariz o cheiro a álcool.]

— Como é que tu te chamas, portuguesa?
— Não interessa.
— Somos de países irmãos, diz-me como te chamas.

Após muita insistência, lá disse:

— Sou a Maria. Bem português, não é?
— Vês como não foi difícil, Maria? Prazer em conhecer-te, espero que gostes de Luanda.

E ao encaminhar-se para a saída, vira-se para a recepcionista e começa a falar de mim. Até que a recepcionista, esperta nas horas, remata a conversa com:

— Ela não se chama Maria. Chama-se Vanessa e é hóspede deste hotel.

Claro que a minha vontade foi dar-lhe um berro. Já agora, por que não dar o número do meu quarto, hein?!

Depois deste episódio, não havia empregado homem naquele hotel que não soubesse o meu nome: era vê-los passar por mim na entrada e nos corredores e desfazerem-se em sorrisos e salamaleques e quase ignorarem o meu colega de trabalho, colega esse que na verdade é director.

 

Como referi antes, foram muitas horas passada no banco de trás do carro, o que deu azo a muitos momentos de conversação com o motorista.
Sem querer dizer explicitamente que Angola é uma ditadura-disfarçada-de-democracia, aludimos à actual situação política do país e ao facto de o partido que está no poder deter o controlo de, digamos, «muita coisa». O que é que o moço nos diz?

A democracia é uma coisa perigosa. As pessoas acham que são livres e que podem dizer e fazer muitas coisas. É melhor haver alguém que dê ordens e diga o que elas podem fazer.

Palavras para quê?