Se há coisa de que gosto quando viajo é de
interagir com os «locais». E fora da Europa essa interação ganha contornos
ainda mais interessantes.
Comecei a rir, literalmente, à
chegada a Luanda. Depois de uma eternidade na fila para verificação do
passaporte, aproximei-me do guichê com um sorriso na cara. Não me recordo se
estava assim tão feliz com a vida, mas o meu rosto parecia reflectir isso mesmo.
O jovem que me atendeu pegou no passaporte e disse:
— Que bom ver tanta alegria no rosto.
— Olhe, como dizem no meu país, tristezas não pagam dívidas.
— Mas a alegria também não.
Pronto, vi logo que ia ser uma
semana divertida. (Mas o jovem tem razão.)
O hotel não correspondeu bem às
nossas expectativas e tivemos algumas dúvidas quanto a actividades paralelas e
quiçá ilícitas que pareciam estar a decorrer em alguns quartos, especialmente
no segundo andar. Mas como estávamos lá através da Embaixada Britânica e os
funcionários mostraram-se bastante disponíveis desde o primeiro minuto, não
insistimos na mudança e fomos fechando os olhos a algumas coisitas. No entanto,
houve um episódio na primeira noite que marcou o resto da minha estadia…
Um amigo de Cape Town estava também
em Luanda e ainda não tinha tido oportunidade de falar com ele. Como a rede wireless nos quartos não funcionava,
desci ao lobby para poder estabelecer
contacto via WhatsApp (com ele e com
colegas de Cape Town). Estava eu muito bem agarrada ao meu telemóvel e
aproxima-se de mim um «local», vindo do bar/restaurante:
— És tu que és a artista?
— Não.
— Tu não és a artista portuguesa que vem aqui cantar?
— Não.
— Tens a certeza.
— Pois claro que sim, tenho a certeza.
— Tu sabes que Angola e Portugal… Nós somos todos irmãos.
— Pois… [Por esta altura, acho que já me tinha
chegado ao nariz o cheiro a álcool.]
— Como é que tu te chamas, portuguesa?
— Não interessa.
— Somos de países irmãos, diz-me como te chamas.
Após muita insistência, lá disse:
— Sou a Maria. Bem português, não é?
— Vês como não foi difícil, Maria? Prazer em conhecer-te, espero que
gostes de Luanda.
E ao encaminhar-se para a saída,
vira-se para a recepcionista e começa a falar de mim. Até que a recepcionista,
esperta nas horas, remata a conversa com:
— Ela não se chama Maria. Chama-se Vanessa e é hóspede deste hotel.
Claro que a minha vontade foi
dar-lhe um berro. Já agora, por que não dar o número do meu quarto, hein?!
Depois deste episódio, não havia
empregado homem naquele hotel que não soubesse o meu nome: era vê-los passar
por mim na entrada e nos corredores e desfazerem-se em sorrisos e salamaleques
e quase ignorarem o meu colega de trabalho, colega esse que na verdade é
director.
Como referi antes, foram muitas
horas passada no banco de trás do carro, o que deu azo a muitos momentos de
conversação com o motorista.
Sem querer dizer explicitamente que
Angola é uma ditadura-disfarçada-de-democracia, aludimos à actual situação
política do país e ao facto de o partido que está no poder deter o controlo de,
digamos, «muita coisa». O que é que o moço nos diz?
— A democracia é uma coisa perigosa. As pessoas acham que são livres e
que podem dizer e fazer muitas coisas. É melhor haver alguém que dê ordens
e diga o que elas podem fazer.
Palavras para quê?