Quando há 24h lancei a bomba de que tinha recebido duas
propostas de casamento num espaço de 4 horas, não esperava tal reacção por
parte da comunidade faceboquiana: ele foi likes,
ele foi comentários, ele foi mensagens, SMS, ui…
Não sou o Presidente da República mas achei que tinha de me
dirigir à nação, esclarecendo os motivos que levaram a tal declaração. E no
final deste post, ainda vão soltar
uma boa gargalhada (vá lá, esboçar um sorriso que eu não tenho assim tanta
piada!)
O primeiro pedido surgiu minutos após conhecer um dos
melhores amigos da minha colega Lauren. Não foi um pedido convencional, claro,
mas a conversa, entre cervejas, jarros de sangria e shots de Caramel Vodka,
levou a algo parecido com isto [versão resumida e muuiiiiito editada]:
— Então,
Vanessa, onde moras?
— Em Pinelands.
— Em
Pinelands? Porquê?
— Porque
ainda não encontrei apartamento na cidade.
— Podes vir
viver comigo.
— Não me
parece.
— E em que
zona da cidade gostavas de viver?
— Em
Gardens.
— Lá está… Podes
vir viver comigo.
[Lauren e eu a rir, rir, rir… A conversa manteve-se sempre
neste registo.]
— E há quanto
tempo estás na Cidade do Cabo?
— Há 8
meses.
— Até
quando?
— Se tudo
correr bem, fico, pelo menos, por 5 anos.
— E tens
namorado?
— Não.
— Porquê?
— Porque vim
para a África do Sul.
— Boas
notícias para mim, então!
— Ah, sim?
— Podes conhecer
alguém e ficar cá para sempre!
— Quem sabe,
não é?
— Podes ficar comigo!
[Gargalhadas.]
— E qual é o
teu apelido?
— Rodrigues.
Rodrigues, e não Rodriguez.
— Rodrigues,
em breve Jacobs.
— Desculpa?
— Vamos
casar. Vais passar a ser Vanessa Jacobs.
E a partir daqui, foi sempre neste registo até me ir embora…
Estava sentada naquela esplanada desde o meio-dia e já passava das 18h. Isto
depois de ter participado numa caminhada solidária de 15 km que começou às 7h e
picos da matina.
Deixei-os aos 2 na esplanada e rumei a casa. Pôr roupa a
lavar, duche, jantar, dar comida às cadelas, estender roupa e ligar o computador.
Passado um pouco, a escuridão total. Nada de luz em meu redor. A bateria do
computador ainda aguentava, mas decidi que não ia ficar à espera que chegasse a
luz: estava cansada, o melhor era deitar e podia estoirar o resto da bateria do
telemóvel na cama, entre Facebook, WhatsApp e jogos.
Mas, nisto, ouço a campainha. Fico imóvel, sem saber se era
real ou efeitos de andar a ver as temporadas do American Horror Story de enfiada, madrugada fora. Ouço a Poppy a ladrar e decido espreitar. No
meio da escuridão total, topo uns faróis junto ao portão. Lá vou eu, de cabelo
apanhado, óculos, roupão, as calças do pijama entaladas nas meias e pantufas.
Não me perguntem o que me levou a não ignorar os faróis numa noite escura de
Inverno. Parecia a protagonista de um daqueles filmes de terror nada
previsíveis, em que as meninas correm na direcção do assassino, etc etc (com a
diferença que eu não sou boazuda como elas costumam ser. Pior, com um pijama em
tons de salmão/rosa-velho e um roupão azul escuro com bolas brancas, estava
mesmo muito distante). Mas com os Davis em Kwazulu-Natal (outra província da
África do Sul), acabo por ser a responsável pela casa e decidi investigar.
Diligentes como só eles, eram os senhores da empresa de
segurança aqui do bairro: para além de serem responsáveis pelos sistemas de
alarme, também patrulham as ruas 24h/dia e são uma preciosa ajuda em casos de
urgência (quando os Davis estão fora, é a mim que telefonam).
O segurança sai da carrinha da empresa e é aqui que começa o
episódio 498 da saga Vanessa in Cape
Town: Twilight Zone. [Pequena nota: o jovem era daqueles pretos, bem
pretos, que falava um inglês manhoso como tudo. A conversa foi pouco fluente,
com muita coisa repetida, mas vou poupar-vos nisso.]
— Boa noite,
Miss, está tudo bem?
— Boa noite.
Acho que sim… Quero dizer, pensava que tinha faltado a luz no bairro mas parece
que foi apenas aqui.
— Pois,
Miss, a central detectou um problema de energia aqui na residência. Está tudo
bem consigo?
— Bom, se
foi apenas um problema de electricidade, só espero que se resolva até amanhã
para poder sair de casa [portões eléctricos, alarme, etc.]. Vou contactar os donos da casa.
— Talvez
seja melhor. Mas pode sempre contar connosco. As cadelas estão lá dentro?
— Sim. E eu
vou andando também, é tarde.
— Está sozinha?
[A luz do poste não é grande coisa, mas deve ter sido mais
do que suficiente para ele ver o meu olhar por trás das lentes fundo de
garrafão. Respondi um pouco a medo, que isto das séries e dos filmes dá-nos a
volta a cabeça e começamos a ver serial
killers em tudo o que mexe. E podia ser o Oscar Pistorius disfarçado, nunca
se sabe.]
— Hoje, sim.
— Então e o
marido?
— Desculpe?
— O marido?
Não tem marido?
— Ah, não,
tenho andado a evitar isso.
— Então sou
eu que lhe vou pôr uma aliança no dedo?
— Desculpe?
O que é que disse?
— Sou eu que
lhe vou pôr uma aliança no dedo. Vamos casar.
[Sim, riam de mim. Isto é surreal.]
— Desculpe,
mas acho que já fez o seu trabalho por hoje. Está tudo bem por aqui, muito
obrigada por ter vindo verificar a casa.
— Mas já
sabe que serei eu… Costuma ir à igreja?
— Se sou
religiosa? Sim, muito.
— É que eu
não vou à igreja, era importante saber se acredita…
— Se
acredito em Deus?
— Pois…
— Olhe, é
tarde e eu estou cansada. Mais uma vez, muito obrigada…
— Se houver
algum problema, telefone-me.
— Claro,
deixe-me apontar o número de emergência.
— Eu é que
não posso dar-lhe o meu número. Mas se mo pedir, eu dou-lho.
— Não
obrigada, basta o da empresa.
— Mesmo que
telefone às 3h da manhã, peça para falar comigo. Eu venho logo.
— Eu espero
mesmo que não seja necessário. Muito obrigada e boa noite.
— Boa noite,
Miss. E não se esqueça, sou eu que lhe vou pôr uma aliança no dedo.
Isto é pura verdade. Aliás, o episódio torna-se
ainda mais surreal e ridículo se considerarmos que o inglês da criatura era
pior que o meu, que eu estava vestida que nem uma palhaça, que era noite
escura, sei lá… É o íman que há em mim: stalkers,
conversas de supermercado e pedidos de casamento.
Mas isto tudo para descansar a minha santa mãe, o
meu rico paizinho e toda a família e amigos: são muito bem-vindos, mas não
precisam de começar a pensar nas fatiotas para o casório! Mesmo que isso
estivesse no meu horizonte, acham que ia anunciá-lo desta forma?!
