segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Branca e radiante vai a noiva... or not.




Quando há 24h lancei a bomba de que tinha recebido duas propostas de casamento num espaço de 4 horas, não esperava tal reacção por parte da comunidade faceboquiana: ele foi likes, ele foi comentários, ele foi mensagens, SMS, ui…

Não sou o Presidente da República mas achei que tinha de me dirigir à nação, esclarecendo os motivos que levaram a tal declaração. E no final deste post, ainda vão soltar uma boa gargalhada (vá lá, esboçar um sorriso que eu não tenho assim tanta piada!)

O primeiro pedido surgiu minutos após conhecer um dos melhores amigos da minha colega Lauren. Não foi um pedido convencional, claro, mas a conversa, entre cervejas, jarros de sangria e shots de Caramel Vodka, levou a algo parecido com isto [versão resumida e muuiiiiito editada]:

— Então, Vanessa, onde moras?
— Em Pinelands.
— Em Pinelands? Porquê?
— Porque ainda não encontrei apartamento na cidade.
— Podes vir viver comigo.
— Não me parece.
— E em que zona da cidade gostavas de viver?
— Em Gardens.
— Lá está… Podes vir viver comigo. 

[Lauren e eu a rir, rir, rir… A conversa manteve-se sempre neste registo.]
 
— E há quanto tempo estás na Cidade do Cabo?
— Há 8 meses.
— Até quando?
— Se tudo correr bem, fico, pelo menos, por 5 anos.
— E tens namorado?
— Não.
— Porquê?
— Porque vim para a África do Sul.
— Boas notícias para mim, então!
— Ah, sim?
— Podes conhecer alguém e ficar cá para sempre!
— Quem sabe, não é?
— Podes ficar comigo!
[Gargalhadas.]
— E qual é o teu apelido?
— Rodrigues. Rodrigues, e não Rodriguez.
— Rodrigues, em breve Jacobs.
— Desculpa?
— Vamos casar. Vais passar a ser Vanessa Jacobs.

E a partir daqui, foi sempre neste registo até me ir embora… Estava sentada naquela esplanada desde o meio-dia e já passava das 18h. Isto depois de ter participado numa caminhada solidária de 15 km que começou às 7h e picos da matina.

Deixei-os aos 2 na esplanada e rumei a casa. Pôr roupa a lavar, duche, jantar, dar comida às cadelas, estender roupa e ligar o computador. Passado um pouco, a escuridão total. Nada de luz em meu redor. A bateria do computador ainda aguentava, mas decidi que não ia ficar à espera que chegasse a luz: estava cansada, o melhor era deitar e podia estoirar o resto da bateria do telemóvel na cama, entre Facebook, WhatsApp e jogos.

Mas, nisto, ouço a campainha. Fico imóvel, sem saber se era real ou efeitos de andar a ver as temporadas do American Horror Story de enfiada, madrugada fora. Ouço a Poppy a ladrar e decido espreitar. No meio da escuridão total, topo uns faróis junto ao portão. Lá vou eu, de cabelo apanhado, óculos, roupão, as calças do pijama entaladas nas meias e pantufas. Não me perguntem o que me levou a não ignorar os faróis numa noite escura de Inverno. Parecia a protagonista de um daqueles filmes de terror nada previsíveis, em que as meninas correm na direcção do assassino, etc etc (com a diferença que eu não sou boazuda como elas costumam ser. Pior, com um pijama em tons de salmão/rosa-velho e um roupão azul escuro com bolas brancas, estava mesmo muito distante). Mas com os Davis em Kwazulu-Natal (outra província da África do Sul), acabo por ser a responsável pela casa e decidi investigar.

Diligentes como só eles, eram os senhores da empresa de segurança aqui do bairro: para além de serem responsáveis pelos sistemas de alarme, também patrulham as ruas 24h/dia e são uma preciosa ajuda em casos de urgência (quando os Davis estão fora, é a mim que telefonam).

O segurança sai da carrinha da empresa e é aqui que começa o episódio 498 da saga Vanessa in Cape Town: Twilight Zone. [Pequena nota: o jovem era daqueles pretos, bem pretos, que falava um inglês manhoso como tudo. A conversa foi pouco fluente, com muita coisa repetida, mas vou poupar-vos nisso.]

— Boa noite, Miss, está tudo bem?
— Boa noite. Acho que sim… Quero dizer, pensava que tinha faltado a luz no bairro mas parece que foi apenas aqui.
— Pois, Miss, a central detectou um problema de energia aqui na residência. Está tudo bem consigo?
— Bom, se foi apenas um problema de electricidade, só espero que se resolva até amanhã para poder sair de casa [portões eléctricos, alarme, etc.]. Vou contactar os donos da casa.
— Talvez seja melhor. Mas pode sempre contar connosco. As cadelas estão lá dentro?
— Sim. E eu vou andando também, é tarde.
— Está sozinha?

[A luz do poste não é grande coisa, mas deve ter sido mais do que suficiente para ele ver o meu olhar por trás das lentes fundo de garrafão. Respondi um pouco a medo, que isto das séries e dos filmes dá-nos a volta a cabeça e começamos a ver serial killers em tudo o que mexe. E podia ser o Oscar Pistorius disfarçado, nunca se sabe.]
— Hoje, sim.
— Então e o marido?
— Desculpe?
— O marido? Não tem marido?
— Ah, não, tenho andado a evitar isso.
— Então sou eu que lhe vou pôr uma aliança no dedo?
— Desculpe? O que é que disse?
— Sou eu que lhe vou pôr uma aliança no dedo. Vamos casar.

[Sim, riam de mim. Isto é surreal.]
 
— Desculpe, mas acho que já fez o seu trabalho por hoje. Está tudo bem por aqui, muito obrigada por ter vindo verificar a casa.
— Mas já sabe que serei eu… Costuma ir à igreja?
— Se sou religiosa? Sim, muito.
— É que eu não vou à igreja, era importante saber se acredita…
— Se acredito em Deus?
— Pois…
— Olhe, é tarde e eu estou cansada. Mais uma vez, muito obrigada…
— Se houver algum problema, telefone-me.
— Claro, deixe-me apontar o número de emergência.
— Eu é que não posso dar-lhe o meu número. Mas se mo pedir, eu dou-lho.
— Não obrigada, basta o da empresa.
— Mesmo que telefone às 3h da manhã, peça para falar comigo. Eu venho logo.
— Eu espero mesmo que não seja necessário. Muito obrigada e boa noite.
— Boa noite, Miss. E não se esqueça, sou eu que lhe vou pôr uma aliança no dedo.

Isto é pura verdade. Aliás, o episódio torna-se ainda mais surreal e ridículo se considerarmos que o inglês da criatura era pior que o meu, que eu estava vestida que nem uma palhaça, que era noite escura, sei lá… É o íman que há em mim: stalkers, conversas de supermercado e pedidos de casamento.
Mas isto tudo para descansar a minha santa mãe, o meu rico paizinho e toda a família e amigos: são muito bem-vindos, mas não precisam de começar a pensar nas fatiotas para o casório! Mesmo que isso estivesse no meu horizonte, acham que ia anunciá-lo desta forma?!





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