Tenho um colega que tem por hábito fazer uma ronda matinal
por todos os gabinetes; e todos os dias ouço «Good morning, Portuguese!». Regra geral, os 3 falamos de trabalho
ou de assuntos mais ligeiros mas, esta semana, ele disparou o seguinte «Do you miss home?» A F. respondeu de imediato que eu não tinha saudades de
Portugal e que ia ficar na África do Sul para sempre (é o que diz a toda a
gente, tão querida!).
Já passaram quase seis meses, é claro que tenho saudades de
Portugal. Tenho saudades da Ema, da família, dos amigos, da comida da mãe, do
ginásio, da minha casa. Mas suporta-se e funciona até como uma força extra para
aproveitar aquilo que estou a viver e dar o melhor de mim: quem nos ama,
deseja-nos nada menos do que a felicidade. Vir para a Cidade do Cabo foi das
decisões mais egoístas que tomei na vida mas, perante todo o apoio que recebi,
não consigo deixar de sentir que tenho de ser feliz também por quem me ama.
Gosto muito do que faço e tenho colegas fantásticos; claro
que há veneno, como acontece em todas as empresas, e gente com quem não nos
identificamos de forma alguma — tenho uma colega que passa pelos corredores e
diz
Hello a tudo o que é ser vivo,
com um tom de voz extremamente irritante e que me tira do sério; hoje, quando nos
cumprimentou, confessei à F. que a minha vontade é responder com um
Goodbye! — no entanto, não me posso
queixar do ambiente de trabalho… em NADA. Rimo-nos muito, há brincadeiras e
desabafos q.b., respeito pelos momentos de concentração, e não raras vezes
tenho convites para ir a casa de colegas para jantar. Já conheço maridos,
filhos, já pus crianças a dormir e dancei ao som do Justin Bieber só para que
não chorassem; já troco livros sobre religião e
tupperwares com restos ou novas receitas. A pouco e pouco, começo a
ter uma vida. Ajuda muitíssimo estar numa cidade linda, com a qual me
identifico bastante e cujo ambiente multicultural me fascina. Já tivemos belos
dias de chuva mas a temperatura voltou aos 20 e picos, pelo que nem do clima me
posso queixar muito.
As chuvas da Páscoa desencadearam em mim o primeiro grande
momento de saudade e tristeza, uma rapariga não é de ferro, caramba. Mas
arranjam-se estratégias e todos os expat têm as suas!
Para quem está longe — e com isto digo fora da Europa —
acredito que a saudade reveste-se muitas vezes de medo. É isso mesmo, MEDO.
Aterroriza-me a ideia de que a Ema se possa esquecer de mim, vivo apavorada com
a possibilidade de ela nem querer estar perto de mim quando for a Portugal…
quando começou a falar, «tia» foi das primeiras palavras 100% perceptíveis que
conseguiu articular. São coisas pequenas mas não há noite em que eu não
adormeça a pensar que no dia em que ela botar a vista em mim, daqui a umas
semanas, vai a correr para o computador, porque é lá que a tia está.
Há outros medos, naturalmente, não menores, apenas
diferentes. Para quem fica, a vida continua: aniversários, casamentos,
baptizados, jantares, festas, etc. Novas histórias vão acontecer, os
«sobrinhos» vão aprender novas gracinhas, as private jokes de outrora já deram lugar a outras. E eu vou estar
com as pessoas e tentar dar seguimento ao que ficou em Dezembro, mas há a forte
probabilidade de me sentir deslocada, como uma espectadora ou figurante de um
filme em que os actores são os mesmos mas o argumento mudou e ninguém me enviou
o guião.
Isto não significa que ando por aqui a chorar pelos cantos.
Nada disso. Sei que esta aventura está apenas no seu início e sinto que fui
talhada para isto. Mas de vez em quando a cabeça começa a pensar… e agora que
começou a contagem decrescente para as férias em Portugal, a ansiedade vai
tomando conta desta cabecinha fraca.