quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Foi de partir a loiça toda!



No seguimento do post anterior, nada como um relato de um jantar verdadeiramente universal…
Conheci a Sonya em Kirstenbosch, 2 semanas após a minha chegada: era a tal portuguesa com família em Torres Vedras. Começámos a sair uma vez por semana, para lanchar, jantar, etc., até à partida dela para Londres, no início desta semana.

No sábado, tivemos um jantar de despedida, que estava previsto ser num tailandês. No entanto, o irmão dela conseguiu uma vaga num restaurante grego, aparentemente bastante concorrido, e lá seguimos nós. Éramos apenas 5, tão diferentes mas com tantas coisas em comum: eu (tuga), a Sonya (tuga que cresceu entre Portugal e a África do Sul e trabalha em Londres), o Jody (sul-africano genuíno), o Roger (irmão da Sonya, mora e trabalha na Cidade do Cabo) e a Carol (brasileira, na Cidade do Cabo há 10 anos). Tudo isto num restaurante grego.
Mykonos Taverna é um restaurante grego, muito popular na Cidade do Cabo, que, no último sábado de cada mês, organiza um jantar/festa especial, com danças e menu fixo. As entradas estavam excelentes: salada grega, queijo feta, pita bread, húmus, espetadinhas de frango, uma espécie de croquetes… tudo isto, bem regadinho com vinho, deixou-nos quase sem vontade para o prato principal. Vieram então 2 pratos, frango e cordeiro. Como sobremesa, recebemos na mesa uma travessa com uma selecção de frutas e doces de ovo e canela.

O ambiente é bem acolhedor e muito mediterrânico, com música e poucos pontos de luz. De repente, algumas empregadas juntaram-se num pequeno espaço central e dançaram ao som de músicas tradicionais gregas, cantando ao mesmo tempo. Fizeram-no durante algum tempo, enquanto outros empregados deixavam nas mesas pilhas de pratos. Não estou a exagerar, eram mesmo pilhas: contei 20 pratos, mesmo à minha frente. Confesso que, distraída como sou, pensavam que iam trazer algum bolo para distribuir pelas mesas. Sim, sou tola e não tenho problemas em admiti-lo!!! Estes pratos destinavam-se ao cumprimento de uma bela tradição grega: partir loiça, como sinal de alegria e desapego pelos bens materiais. E foi o que fiz; juntei-me aos restantes e atirei três pratos ao chão. No espaço em que as meninas continuavam a dançar, juntaram-se cacos de todos aqueles que se atreveram a cumprir a tradição, a que, depois, alguém pegou fogo com recurso ao conteúdo de 2 garrafas de J&B.

A única falha foi minha, de não ter tirado fotografias. Mas não havia ninguém a fazê-lo, apenas o fotógrafo oficial do restaurante. Se entretanto disponibilizarem algumas fotos, farei o favor de aqui deixar algumas.
Com isto, lá disseram que era hora de ir para a discoteca. Oi? São 11h da noite, qual é a discoteca que está aberta? Parece que, na África do Sul, são todas. E, de facto, quando entrámos já a casa estava apinhada.

A música era um misto de anos 80 e coisas mais recentes: foi excelente berrar ao som do Summer of 69, mas igualmente interessante foi ouvir, pela primeira vez, o Gangnam Style até ao fim... [Não reproduzi qualquer movimento da coreografia; mesmo que a soubesse, não o teria feito!!] Senti-me em casa, ou, para ser mais honesta, parecia que estava na Oura ou em Albufeira velha: tudo a falar inglês, meninas com vestidos curtos a dançar em cima das colunas, meninos com camisolas em bico e copo na mão... Nem faltou o fotógrafo ou o «quefrô», ahah! Fui muito bem tratada e não tive autorização para tirar a carteira da mala, mas fiquei com a ideia de que a única coisa diferente são os preços: a entrada no clube foi R30 (cerca de 2,5€) e, segundo o Roger, as bebidas brancas custam sensivelmente o mesmo... Bela desculpa para os homens pagarem uns copos às meninas!

A night acabou cedo, claro, mas soube muito bem. Diz que a próxima é o Carnaval brasileiro, galera!


domingo, 27 de janeiro de 2013

Por dentro somos todos iguais


O mês que antecedeu a minha partida foi repleto de emoções fortes e momentos agridoces. Mas também ficou marcado pela quantidade de piadas que ouvi relativamente ao facto de vir para um país africano: do cheiro a catinga à fala afectada, acho que ouvi de tudo!
A África do Sul tem particularidades, como qualquer país tem, mas mais ainda no que diz respeito às raças. Berço da humanidade, por aqui passaram os Bantu, Khoisan, Zulu, e inúmeros outros povos; os Portugueses, claro, deixaram a sua marca quando eram um povo destemido e donos do mundo e, depois, através dos madeirenses (sem esquecer os que aqui se refugiaram após o fim do colonialismo); os Ingleses e os Holandeses andaram às turras por causa deste pedacinho de terra; e ainda toda a influência das Índias, Malásia, Médio Oriente, etc. O Apartheid, apesar de ter terminado há muito, deixou marcas que são ainda visíveis. Ou seja, esperava-me um país multicultural, multirracial, multi-sei lá.

Quem pensava que eu vinha aterrar num país africano —com toda a carga negativa que normalmente associamos a este continente — , cheio de pretos, como se tivesse largado uma vida de luxo para embarcar numa missão de voluntariado para salvar este povo... engane-se. Aqui há de TUDO, todas as formas, todos os feitios, todas as cores.

Nos poucos sítios onde já estive — não esquecer que estou a trabalhar, não estou de férias — a maioria é branca, com ar muito nórdico. Onde vejo a maior fatia de pretos é nas caixas de supermercado, nas lojas [mas verifiquei que na Vuitton e na Dior são brancas!], em serviços como bancos ou correios, arrumadores, no MacDonald’s, como empregados de mesa nos restaurantes, empregadas de limpeza... Claro que também os há nos centros comerciais e pelas ruas, mas não são a maioria!
No escritório, por exemplo, há de tudo. Do meu gabinete, vejo passar no corredor brancas loiras ou arruivadas de olhos azuis, pretas com penteados afro, muçulmanas com apenas a cara descoberta, coloured, monhés... tudo.

Este fim-de-semana, por exemplo, fui a uma discoteca e senti-me como se estivesse na Oura ou em Albufeira velha: multidões de gente loira, olhos claros, a falar inglês... as mais novas com vestidos minúsculos, a dançar em cima das colunas; as mais velhas, com roupinhas mais recatadas mas agarradas ao cigarro e à garrafinha de Smirnoff; eles, matulões, com ar de jogadores de râguebi. Tal como a Carol disse, depois de o Roger nos ter tirado uma fotografia «Vanessa, olhando para a foto, parecemos umas pálidas ao pé de ti, que és tão morena...» Sim, eu, morena.
E como me sinto eu com tudo isto? Muito bem, obrigada! Custa-me viver sem os meus produtos para cabelos encaracolados (eheh), mas de resto, ADORO esta diversidade, esta riqueza de que é normal sermos diferentes. Porque, efectivamente, por dentro, somos todos iguais.




PS – Claro que, num país tão imenso, há regiões só com pretos, especialmente no interior, mas a Cidade do Cabo é quase uma cidade europeia, e eu vivo numa zona maioritariamente branca. Tudo o que comento e relato neste blogue reflectem apenas a minha experiência, o que tenho visto desde que cheguei, o que não invalida que outras pessoas tenham opinião diferente ou que eu própria não venha a constatar outras realidades nos tempos vindouros.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Doses XXL


Numa das investidas a um dos centros comerciais aqui da zona, e antes de um périplo de 2 horas por lojas de decoração, achei que merecia um lanchinho, só para não desfalecer para cima de um serviço Vista Alegre. Já passava das 18h e muitas das pessoas já estavam a jantar, por isso abanquei numa coffee shop e pedi um cappuccino e um scone. Imaginem a minha cara quando me põem isto à frente:

 
 
Vejam o tamanhinho quando comparado com o garfo ou com a chávena do cappuccino!
 
 
 
Escusado será dizer que serviu de lanche, deixou-me sem fome para jantar e o que sobrou ainda deu para o pequeno-almoço do dia seguinte. Sim, porque sobrou o suficiente para levar para casa.
Levar para casa o resto de um scone? Mas ela está a passar fome? Estará a precisar de dinheiro? Não, nada disso. Trata-se de um dos hábitos que mais adoro nesta terra: os restos vão sempre para casa, com o cliente. Seja numa coffee shop, seja em restaurantes italianos, tailandeses, chineses, africanos, etc., sempre que sobra comida no prato, os empregados perguntam, automaticamente, se o cliente quer levar os restos; para esse efeito, todos os restaurantes dispõem de caixas e sacos próprios. As doses são francamente grandes — uma pasta Alfredo deu-me para 3 refeições — e nada dispendiosas, o que torna a coisa ainda mais vantajosa.
Esse é outro aspecto que me agrada aqui: não é caro comer fora de casa. O máximo que gastei num jantar foram R150 (menos de 15 €), já com a gorjeta obrigatória de 10%, e incluiu entradas como sushi e vinho. O lanche que viram mais acima custou-me cerca de 3 €. Não é mau. E um menu MacDonald’s também é mais barato…

 
Este menu é premium, é dos mais caros, e custou cerca de 3,5 €, parece-me.


Para quem, como eu, adora comer mas não pode… isto é tramado! Mas vou aproveitar ao máximo e compensar com umas saladinhas e umas corridinhas ao fim-de-semana!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A saga do fruit cake


 
 Um mês depois de abandonar Sobral de Monte Agraço rumo à Cidade do Cabo, a «piquena» chegou!
Ao que parece, chegou pouco tempo depois. Mas os senhores da Alfândega decidiram abrir a caixa… E tudo isto na segunda quinzena de Dezembro, em que, para além das férias do Natal, há 4 feriados! Uns dias depois, enviam uma carta a dar conta que a dita cuja ficou «presa» e que preciso de contactá-los. Pelo telefone, dizem-me que posso ser considerada traficante caso não apresente comprovativo de compra de tudo o que consta na encomenda. Seguindo os conselhos de uma pessoa mais velha, bati o pé e respondi: «Não lhe arranjo qualquer carta de Portugal, nem vale a pena insistir. Posso, sim, enviar recibos e cópia não certificada do passaporte. Mais nada.» Lá enviei a papelada toda, sempre com um sorriso nos lábios e um pensamento presente: Quero ver de que serve a porcaria dos papéis em português! Até podem ser falsos! Passam os dias e nada… Hoje telefonei novamente e, depois de ter sido reencaminhada para a secção internacional, recebo a bela notícia de que a encomenda já pode ser recolhida na estação de correios do Howard Centre, mesmo em frente ao escritório. 13:30, 38 ºC e eu com uma caixa de cartão cheia de fita autocolante nos braços.

Horas depois, já em casa, dediquei-me à exploração do conteúdo da encomenda…




Está tudo comestível. Nunca pensei que bolo-rei e uma fatia de queijo de Nisa soubessem tão bem no pico do Verão! Obrigada, papá e mamã, pela bela surpresa que, acima de tudo, vinha embrulhada com muito amor e carinho!


Mas se eu amanhã estiver de diarreia, já sabem a que se deve, ahah! Embora, como diz a minha «avó» Lisete, «uma caganeira de vez em quando não faz mal a ninguém, até serve para limpar os canos!» Mai nada!

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

I'm back!


E passado um mês e uma semana, mudei-me finalmente para um espaço «meu». É mais um espacinho, tipo casa-modelo do IKEA, mas que serve perfeitamente para este segundo mas verdadeiro início de vida na África do Sul.
Estou numa pequena cottage, uma espécie de anexo de uma vivenda. Não é uma vivenda gigante, mas tem um bom jardim, uma boa garagem e uma piscina de água salgada que pude experimentar logo no dia em que cheguei. Em termos práticos, estou instalada num T0, mobilado, com loiça e electromésticos (TV inclusive) … só precisei de comprar edredão, almofadas, lençóis, algumas toalhas, e já avancei para uns tapetes, para tornar a «coisa» mais confortável. Tenho estacionamento, um pequeno jardim, com mesa e cadeiras, e acesso livre à casa das máquinas, que fica num espaço exterior. Até posso pedir uma mãozinha à Irene, a maid, se algum dia não estiver virada para a lida da casa. Como não pago água nem luz, nem sequer me fizeram um contrato formal, posso afirmar, com toda a certeza, que não me posso queixar. Ah, e claro, vou a pé para o trabalho… No escritório, todos me dizem que tenho tido muita sorte, mas acredito que, se pedirmos ajuda de forma delicada e sincera, se formos honestos e agradecermos com um sorriso, quando nada mais podemos oferecer… muita coisa acontece e aparece de forma natural.

Os colegas têm sido muito prestáveis, mas nunca esquecerei o casal que me acolheu no B & B, dois ingleses que me fizeram esquecer que eu era uma hóspede: com tantos cuidados, ajudas e convites para jantares, quase me senti da família. E a prova é que mal me tinha instalado na cottage já estava a receber a visita deles: queriam certificar-se de que eu estava bem instalada, que nada me faltava e até me trouxeram um presente, uma moldura para colocar uma fotografia da Ema. Fiquei com lágrimas nos olhos e despedimo-nos com um See you soon. [Na véspera, tinha-lhes deixado uma caixa toda catita com uns «mimos» muito apreciados: biscoitos de gengibre, mini suspiros, compotas várias, um frasco de azeitonas,… tudo coisinhas caseiras, como forma de agradecimento por tudo.]
A primeira semana foi algo frenética, a correr os centros comerciais da zona em busca dos itens em falta, a aprender a lidar com o alarme, etc.

Quando me propus a procurar opções de Internet, deparei-me com coisas estranhas: necessidade de apresentar o passaporte e prova de residência. A África do Sul tem uma coisa chamada RICA que, basicamente, diz respeito à segurança dos cidadãos e do país e que obriga a um registo específico nestas situações. Bom, lá apresentei uma solução (uma vez que não tenho contrato de arrendamento, luz ou água) e arranjei uma carta dos senhorios, que não recebeu qualquer objecção por parte da Vodacom.
No entanto, para activar o modem (UBS stick) é necessário activar o cartão SIM. E quanto tempo é que isso levou? 48 horas. Sim, 48 horas. Stressei mais com a pressão de terceiros (para ter Internet asap) do que com a espera em si… sinal de que já estou a «abraçar» o ritmo de vida africano, ahah!

Enfim, todo este relato (que de interessante, tem muito pouco) para dizer que poderei, finalmente, continuar a deixar os meus pequenos apontamentos no blogue. Sem pretensiosismos, sem grandes artifícios de linguagem — apenas uma forma de partilhar esta minha aventura e de me sentir mais próxima de todos os que, por um motivo ou por outro, me lêem.

MISS U ALL.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Hábitos que NÃO vou adoptar # 1

 
 

Quem me conhece, sabe que sou uma pessoa pouco dada a beijinhos e demonstrações de afecto para com aqueles que não me são próximos, mas considero-me uma pessoa educada e simpática q.b.
 
Profissionalmente falando, odeio o estúpido modelo português de hierarquias, com doutores e engenheiros em tudo o que é escritório e empresa, mas é disso que o país gosta e habituei-me a, nesses contextos, cumprimentar as pessoas com um aperto de mão e/ou um beijinho na cara, se tanto.
 
 
Estava entusiasmada por voltar a um ambiente informal, que já tinha experimentado em Espanha, Inglaterra, França, Itália, e o piquenique da primeira semana veio provar esta informalidade. No entanto, não estava preparada para o contacto físico que aqui parece reinar...
 
 
O cumprimento «normal» consiste num beijo na cara e um abraço... GOD, o que esta gente gosta de abraços. No Natal, dei 2 beijinhos à minha colega Fatima e ela berrou logo por um abraço (mais do que merecido e justificado, neste caso!). E nestas primeiras semanas, tudo bem, um abraço é uma excelente forma de reconhecer o que têm feito por mim... Mas beijos na boca?
 
Sim, porque entre familiares, amigos e alguns colegas de trabalho, é comum dar um beijo na boca seguido de um abraço. Já o vi em casa de outras pessoas, no escritório, nas ruas... Aconteceu-me ter de afastar a cara, como se fosse mal-educada, para não levar com um beijo na boca.


Não me levem a mal, mas isso já é muito para mim.
 
Apesar de falarmos em inglês uns com os outros, estou mais do que agradecida por trabalhar com um português, um brasileiro, uma luso-descendente e uma inglesa. E fora do escritório dou-me com ingleses, essencialmente, e sul-africanos que já trabalharam na Europa, logo, estão conscientes destas «diferenças».


Novos horários e novas rotinas: sim. Conduzir do outro lado da estrada: sim. Uma abracinho de vez em quando: sim. Mas beijos na boca a amigos e colegas: NÃO.


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Serviço público (ou como pode ser perigoso viver na África do Sul)

Não ouvi a mensagem de Ano Novo do nosso Presidente da República mas, pelo que li em sites e blogues, é mais do mesmo. Como a ideia de emigrar paira cada vez sobre a cabeça de alguns  - e caso alguém esteja a pensar gastar 24h da sua vida para cá chegar - , decidi fazer um pouquito de serviço público e mostrar alguns dos perigos com que já me defrontei durante a minha curta estadia em território sul-africano:


Um pesadelo para quem, como eu, gosta de tudo o que tenha mint, peppermint e afins. Há-os de todas as marcas, tamanhos e preços. No Natal, uma das sobremesas era Peppermint Crisp e eu cheguei a dizer que já podia morrer porque morria feliz e de barriga cheia.
 Chocolate Mousse Caramel Hidden Centre Cupcakes. São tão doces que até os dentes se ressentem. Mas uma delícia, também disponível noutras variedades. Quem está numa de fazer regme, aconselha-se distância do Woolworths Food Section: para além disto, há toda uma série de miniaturas doces, salgadas, preparados para braais... Uma desgraceira.
 Spinach & Feta muffins. Uma palavra: baba. Mais um perigo saído directamente do Woolworths.


 


Bolachas do Pick 'n Pay. Mint, Caramel, Chocolate... as de coco não cabiam na foto.



Falarei de outros perigos ao longo das semanas vindouras porque não quero que fiquem excessivamente preocupados com o meu bem-estar e níveis de satisfação :-)

terça-feira, 1 de janeiro de 2013