Pois que há uns
tempos recebi um email da minha rica mãe a pedir para escrever e contar
novidades. Não sei se ela se referia ao blogue ou ao simples acto de responder
ao email, mas vamos pela primeira hipótese porque é um 2 em 1.
Já estou nas
novas funções, em modo oficial, desde o dia 1 de Abril, mas continuo pela Cidade
do Cabo, sem data prevista para me mudar para Maputo. Confesso que esta
incerteza, tão própria de África, me deixa algo inconformada por não me
permitir planear atempadamente a mudança. Tenho de vender o carro, empacotar as
minhas coisas, deixar o apartamento – e para isto, preciso de datas; o
escritório também tem de ficar mais ou menos vazio; e, claro, as festas de
despedida! Não só tenho de me preocupar com as minhas «coisas» como também
sinto a pressão dos que me rodeiam, que esta gente gosta é de festa, comida e
bebida (e as minhas roupitas provam isto mesmo). Vida dura!
Enquanto este
impasse burocrático não se resolve, vou (sobre)vivendo, claro. Posso não relatar
todos os pormenores no blogue e/ou no Facebook, mas tenho preferido viver a
vida ao vivo e a cores...
Depois de mais
uma semana INTENSA em Maputo, dormi 5 horas e rumei a um festival de música –
Kday – patrocinado por uma estação de rádio. Pelo cartaz e pela localização,
pensei que seria coisa parecida com o Sudoeste (mas apenas 1 dia) mas, para
minha grande surpresa, havia famílias inteiras a piquenicar no recinto. Sim, a
piquenicar: com cadeiras, mantas, chapéus de sol, marmitas, tudo num ambiente
muito familiar e descontraído. Apesar do calor, a Lauren e eu tomámos a decisão
certa de deixar o chapéu (de praia) no carro e levámos apenas uma pequena manta
para nos sentarmos. De facto, durante o dia, andámos sempre entre o bar (que
tinha esplanada) e os «acampamentos» de pessoas conhecidas que íamos
encontrando... e não conhecidas também, que por sermos apenas 2 facilmente nos
infiltrávamos em qualquer lado. A beber baldes de cerveja de meio litro desde
as 11h e pouco, não demorou muito para a Lauren me começar a apresentar a todos
como «my Portuguese friend». É o que ela faz sempre e eu adoro, farto-me de
rir! Acho que se tornou numa boa estratégia para conhecer gente em bares, haha!
Conhecemos 2
«velhas malucas» (50-60 anos) que pediram para se sentar em metade da nossa
mesa e com quem nos divertimos muito, muito mesmo. A certa altura, elas
repararam num jovem que se passeava entre as mesas, em tronco nu, exibindo uma
série de tatuagens. Uma das senhoras comentou que ele devia ser cabeça oca e
nem sequer saber que significado tinha cada uma das tatuagens. Tanto insistiu
nisto, que a Lauren chamou o rapaz. Calada que nem um rato, lá ouvi o rapaz
explicar cada uma das obras de arte que lhe cobria o tronco – e as nossas
amigas lá tiveram de engolir o sapo. Quando lhe perguntaram qual a ocupação,
ele disse:
- Sou engenheiro de software... mas a Vanessa
parece-me mais uma rapariga de hardware.
E com isto olhou
para mim e riu. Eu, que mal abrira a boca até então, corei EM GRANDE e permaneci
calada até ele ir embora.
Adorei a música,
adorei o ambiente. A oferta ao nível da comida era imensa, os preços
acessíveis, WC bastante razoáveis e sempre limpos. Sem dúvida que voltarei, se
ainda por cá estiver.
Deviam ser umas 2 da tarde...
As nossas amigas...
Não me lembro do nome do jovem. Era suposto ser uma selfie mas a Lauren falhou um pouco :)
Eu e a Lauren.
Mi Casa
Mi Casa - este é o João.
A caminho de
casa, parámos numa estação de serviço para comer um hambúrguer, que eu nem
acabei tal o cansaço, e enquanto esperávamos pela comida, ela diz:
- Olha, parece o J’ Something dos Mi Casa.
[Pequena nota
informativa: J’ Something é o nome artístico do João, um português que cresceu
em Joanesburgo e é vocalista dos Mi Casa, o grupo do momento na África do Sul,
autores do mega-hit Jikka, e que
tinham estado a actuar no festival.]
Eu olho para trás
e digo, meio a dormir:
- Não parece, é mesmo ele.
- OMG, Vanessa, é mesmo ele!
- Se eu tivesse menos 20 anos e estivesse menos
cansada e mais bêbeda, já ali estava a chateá-lo, a dizer que também sou tuga,
bla bla.
- Vai lá, Vanessa! OMG, a Zoe e a Robyn vão ficar
cheias de inveja!
- Não sei, é um bocadinho foleiro fazer estas
coisas com esta idade.
- Não sejas assim, vai lá.
E eu fui. Falei
num misto de português e inglês e o rapaz «cagou» para mim. Eu sei que ele
estava cansado e com fome (também eu!) e, muito provavelmente, com pouca
vontade de aturar gente (também eu!)... mas podia ter sido um pouquinho mais
simpático. A Lauren, que assistiu de longe, diz que ficou a odiá-lo e que eu
não podia arranjar desculpas para a atitude dele. Eu estava mesmo cansada e
tentei desculpá-lo ao máximo.
Fui a dormir até
casa da Lauren e a conduzir a 30 km/h e de janela aberta até à minha casa, para
que o frio da noite me mantivesse acordada. Sabe Deus o quão exausta eu estava
depois da semana em Maputo.