sábado, 30 de março de 2013

Maputo - Tata, Lourenço Marques! (parte III)


Como já referi, foram 30 anos a ouvir histórias de Lourenço Marques, Boane, Matola, Beira, Bilene (praia) … Maputo era só uma palavra no mapa. Por isso, assim que se confirmou a minha viagem a Moçambique, comecei a praticar o nome actual da capital. Nos livros moçambicanos, o período do colonialismo é associado a conceitos como opressão e escravatura e os Portugueses são retratados da pior forma possível; ora, falar da minha família «moçambicana» e dizer Lourenço Marques em vez de Maputo não me parecia ser o melhor cartão-de-visita!
Por muito que nos preparemos para aquilo que vamos encontrar à saída do aeroporto, é inevitável para o cidadão europeu comum uma certa sensação de choque. Ah, e tal, o que não falta aí são fotos de África, Vanessa! Claro que sim, e o meu trabalho passa por ver fotografias de Moçambique todos os dias. Mas, como referi anteriormente, estar na Cidade do Cabo ou em Lisboa a ver fotografias no computador e pensar «Ah, coitadinhos, que miséria…» não é a mesma coisa que estar no local e verificar a realidade com os nossos próprios olhos.

Até ao centro da cidade, são quilómetros de casas/barracas velhas e sujas, cujas paredes exteriores estão cobertas de publicidade antiga (já não me lembrava de alguns logos!) ou ostentam sinais/indicações de que se trata de um café, um electricista ou um cabeleireiro. As pessoas arrastam-se pelos pequenos corredores labirínticos que separam as casas; outros sentam-se no chão, na rua. Para quem conhece alguns dos bairros problemáticos da Amadora, nem que seja de longe, é um cenário idêntico, mas com uma dimensão gigantesca.
As estradas têm algum alcatrão que se encontra, todavia, em franco estado de deterioração e muito empoeirado. Os buracos são mais que muitos e conduzir nos espaços onde deveriam existir separadores e passeios é uma prática comum. Não existem traços nas estradas (embora existam nas autoestradas exploradas pela África do Sul) mas, caso houvessem, não acredito que os respeitassem… a filosofia que parece reinar é: se a largura da estrada dá para 3 carros, por que razão haveremos de conduzir em 2 faixas? Este trânsito caótico verifica-se no centro da cidade, claro, principalmente nas principais avenidas.

Estava muito ansiosa por conhecer Maputo e não raras vezes as lágrimas caíram-me pela cara. Eu conheci a cidade através dos olhos da minha mãe (avó e tios, também), as minhas «memórias» eram outras e percebo agora o que leva muitos retornados a não querer regressar a Moçambique. Independentemente do que aconteceu, o povo moçambicano não conseguiu sequer manter o que foi construído até 1974, quiçá foi um desprezo consciente e uma atitude destrutiva propositada, como que para apagar o passado colonialista.


 
 

Toda a cidade me pareceu poeirenta, suja, degradada, sem cor, que se move lentamente sob um calor húmido e atmosfera sufocante. No final do primeiro dia, coloquei-me a questão habitual sempre que visito um novo país: «Eras capaz de trabalhar e viver aqui?». A resposta foi rápida: não.
Mas África tem a sua mística e concordo a 200% com a Sofia quando diz que primeiro estranha-se, depois entranha-se. De repente — e muito graças à maravilhosa vista do 20º andar — pude ver verde, muito verde. Água. E comecei a ver a cidade e as suas gentes de maneira diferente.






Caminha-se muito bem pela cidade (apesar da ausência de passeios e dos enormes buracos e montes de pedras). O facto de a Avenida 24 de Julho ter tantas árvores facilitou a deslocação entre as várias reuniões e o escritório e, apesar do passo gigante e rápido do Ruben, pude ir apreciando pequenos pormenores como as fachadas dos edifícios, as lojas, as pessoas. Começamos por ter vontade de tirar fotografias a tudo, qualquer canto se assemelha aos emails que recebemos com imagens de África e das quais nos rimos tanto… Uma «Loja das Damas» com lingerie e cintas penduradas do lado de fora da montra junto a uma Levi’s; jipes Mercedes estacionados junto a chapas velhos e com portas que parecem cair; vendas ambulantes de qualidade duvidosa ao lado de edifícios de escritórios… Os próprios nomes das lojas levam-nos às lágrimas. E se não temos tempo de ir ao supermercado, não faz mal: de telemóveis a pensos higiénicos, de sapatos a mesas de café, tudo se vende na rua… A jantar numa esplanada ou a ver montras, somos constantemente «assaltados» por vendedores de rua e até ao último dia não parei de me surpreender com a vasta oferta dos seus serviços (tive pena de não ver serviços de manicure, como a Sofia me contou!)
Da minha experiência, as pessoas pareceram-me extremamente humildes e educadas. Onde quer que entremos, todos nos cumprimentam; até mesmo na rua as pessoas passam e dizem «Bom dia» ou «Boa tarde». Estranhei até o tratamento dos meus colegas, sempre com «Senhora Vanessa, como está?», «Senhora Vanessa, está tudo bem, graças a Deus.», «Senhora Vanessa, não se incomode, eu levo as suas malas.». Quis dar 2 beijinhos a toda a gente mas alguns assustaram-se, acho eu! Claro que foi apenas 1 semana mas só tenho a dizer que se confirmou a ideia de que é terra de boa gente, sem dúvida, adorei o acolhimento caloroso por parte de todos!

Mesmo com trânsito caótico, edifícios abandonados e pilhas de lixo (os contentores deixam-se de ver, não é exagero), habituamo-nos e deixamos de reparar no menos bom.
É uma cidade lindíssima e sei que o país é muito mais do que Maputo. Mas está longe de atingir os objectivos a que os seus governantes de propõem. A burocracia é assustadora; a corrupção existe, embora menos grave do que em Angola; tudo demora e há sempre 1001 razões para que algo não apareça feito. A «lentidão» é um modo de estar na vida que está enraizado e que lhes corre no sangue. Os Europeus não podem chegar e esperar conseguir mudar tudo num par de meses… nem num par de anos, sequer! Se fosse fácil, já teria acontecido, certo?

E, no meio disto tudo, onde andava a Lourenço Marques da minha família? Apesar do mapa desenhado e enviado pela minha mãe, vi que seria difícil descobrir os spots! Curiosamente, descobri-os graças aos anos de histórias… Ao passar pela Pastelaria Cristal, pensei Acho que a Escola Comercial é em frente… e lá estava ela! Quando me apercebi que estava na Sé, disse logo em voz alta «E a Câmara Municipal fica aqui ao lado!». E quando me apontaram a Assembleia da República, surpreendi os meus colegas de Maputo ao afirmar, inchadíssima, «Onde era o Cinema S. Miguel!» O Ruben olhava para mim, como que a duvidar da minha sanidade — querido chefe, nunca fui e nunca serei sã, como já deu para perceber ao fim de 4 meses! — mas eu estava orgulhosa e feliz por ver que alguma coisa tinha ficado do que ouvi ao longo da minha existência!




 

Porque só fui ao Alto Maé de carro, não tive oportunidade de ver e fotografar devidamente o cruzamento da Avenida 24 de Julho com a Avenida da Tanzânia, onde parece que toda a minha família viveu. E o mais triste é que tive tempo de tirar fotografias aos 3 pontos do cruzamento, excepto ao que corresponde ao lugar exacto onde a minha mãe viveu (vi o que lá está agora, que já não é a vivenda de que me fala, mas não tenho fotografias).
 


 

É para mim muito difícil escrever sobre este aspecto da viagem sem pensar na minha avó e sem que as lágrimas caiam sem que me consiga controlar. Por isso, peço desculpa por não me «esticar» mais… não é fácil e até eu fico sem palavras.


Ficam boas recordações: as vistas, as pessoas, o calor húmido, a hospitalidade, as escolas, os meus pretinhos aos saltos, o contacto com a realidade, o jantar na Matola e a noite de trovoada na esplanada, a 4, a beber cerveja, a ver o SLB, com a sensação estranha de estar em casa. Fica a magia de África. E a promessa de voltar à «minha» terra.
 
 
 

 

quinta-feira, 21 de março de 2013

Maputo - conhecer a realidade para a qual trabalho (parte II)


E que fui eu fazer a Maputo que não me deixou tempo para passear?
Nunca falei muito do meu trabalho (do meu emprego), por ter perfeita consciência de que é demasiado técnico para ter piada e/ou interesse para a grande maioria das pessoas. Além disso, a filosofia e a «beleza» que associamos ao manual escolar perde-se muito quando se trabalha no mesmo, acreditem... mas eu ADORO! [Há malucos para tudo, que fazer, e eu faço parte do grupo.]

De uma forma genérica, vim para a Cidade do Cabo para fazer manuais escolares para Moçambique e Angola. Mas uma coisa é estar sentadinha no escritório, com vista para a montanha, a conceber um projecto para professores e alunos moçambicanos... outra é ir a Maputo e entrar numa sala de aula.
Para além de uma reunião geral que nos tomou quase 2 dias, e em que ficámos fechados no escritório, o resto do tempo foi passado em reuniões com autores e com directores de vários departamentos do Ministério da Educação. Para os primeiros anos de escolaridade, é o Governo quem adquire os manuais para os alunos, daí a importância de mantermos um contacto regular com as diversas entidades ligadas ao processo. Apesar de quase não haver passeios nas ruas, estes edifícios estão em relativo bom estado, a entrada do Ministério da Educação é até bem modernaça. Por dentro, e apesar de todas as salas terem ar condicionado (foi o que me safou nestas andanças), é tudo algo obsoleto… Organização e arrumação não predominam mas isso é lá com cada um! Há computadores e impressoras, claro, contudo a electricidade vai abaixo regularmente – numa das reuniões, que durou aproximadamente 40 minutos, contei 5 cortes de energia. Claro que a própria Internet também tem os seus momentos. A simpatia e disponibilidade das pessoas compensam tudo isto: o atraso do primeiro dia obrigou-nos a faltar a algumas reuniões e todos conseguiram arranjar espaço nas suas agendas para nos receber noutros horários.

Foi extremamente importante ter a oportunidade de ouvir estas pessoas, saber um pouco mais sobre o sistema de ensino moçambicano, perceber as diferenças entre aquilo que está no papel (leis, decretos-lei) e o que é possível fazer no campo (nas escolas, nas salas de aula). É fundamental encarar isto com a mente aberta e não fazer comparações com a Europa. Continente diferente, clima diferente, pessoas diferentes, circunstâncias diferentes, histórias/História diferentes… é claro que temos realidades diferentes!
Para que percebam alguns dos traços gerais:

·         Como as escolas não têm capacidade de resposta para tantos alunos, as aulas são organizadas em regimes: o nocturno e o diurno (este último com 2 turnos, o da manhã e o da tarde). Isto significa que há crianças que têm aulas a partir das 18h/19h até às 23h (mais ou menos);

·         As turmas têm uma média de 50-70 alunos. Nas províncias do Norte, há escolas com turmas de 100 alunos;

·         Nem todas as salas têm mesas e bancos para todos os alunos;

·         Todos os alunos têm livros mas única e exclusivamente porque os manuais são comprados pelo Ministério — a maioria destas famílias não tem poder económico suficiente para tal;

·         A grande maioria dos professores tem formação ao nível da 9ª classe (alguns completaram a 12ª classe). Nos últimos anos, já se tornou mais comum ver professores que passaram pela Universidade Pedagógica e têm, por isso, mais habilitações;

·         Muitos professores dão aulas em mais de um estabelecimento de ensino, o que os obriga a fazer quilómetros. No norte do país ou no interior, os professores não têm sequer um computador e caso pretendam ter acesso à Internet, têm de percorrer distâncias por vezes superiores a 50 km;

·         O Português é a língua oficial mas há 16 línguas nacionais, faladas nas mais diversas províncias.

Creio que dá para ter uma ideia… O Ministério da Educação tem disponibilizado muitas verbas, mas há um caminho muito longo a percorrer. E depois a ironia própria de situações como os governantes apelarem para a importância da educação e da formação mas os seus filhos andam em boas escolas privadas ou estudam no estrangeiro…
Por tudo isto, a expectativa em torno das visitas a escolas era enorme!

A primeira escola que visitei fica fora de Maputo. Lá fizemos um troço da via rápida que liga Maputo a Boane e Ressano Garcia, seguido de uns quilómetros, entre vários prédios e moradias, sem qualquer vestígio de alcatrão e com muitos, mas muitos buracos mesmo. Fomos recebidos por uma irmã, que nos falou um pouco mais daquele colégio para meninas da 6ª à 12ª classe. Visitámos as instalações — o edifício é antigo mas encontra-se em razoável estado de conservação. Por ser um colégio privado não pensem em grandes modernices… a sala de informática tem apenas 13 computadores que, tal como a irmã sublinhou, pertencem à pré-história. As meninas têm Educação Física logo pela manhã e podem tomar um duche antes de seguir para as restantes aulas. Nos intervalos, andam pelo recreio, em grupinhos, a fazer os disparates próprios da idade. O uniforme consiste em saia e blusa brancas mas pelos sapatos e acessórios de cabelo percebemos que há meninas que vêm de famílias com algumas posses (mas nada de extravagâncias, atenção). Estivemos numa sala de aula, onde fomos o alvo das atenções, claro: eramos os 2 únicos brancos… as raparigas tão depressa olhavam para o Ruben (um homem, meu Deus!) como para mim, especialmente, por causa do cabelo e dos óculos de sol. Acho que se derreteram quando o Ruben disse «Bom dia!», ahah, e algumas davam saltinhos nos bancos quando, à saída, me virei para trás, pisquei o olho e disse adeus!

Apesar de ser uma escola privada, muitas das alunas estudam ali com bolsas de estudo, e, pelas palavras da directora, percebemos que algumas passam por dificuldades económicas e as suas famílias privam-se de algumas coisas para que as filhas possam ter uma educação «melhor». Deste colégio saem professoras mas também médicas e advogadas. Há claramente um grande enfoque na educação como forma de garantir um futuro melhor.

Confesso que se me escaparam algumas lágrimas… E se aquilo era uma escola privada, o que nos esperava na escola pública que íamos visitar no Alto Maê, em plena capital?

No período da tarde, lá seguimos para a escola primária pública que nos aceitou receber. A própria envolvência da escola é, para um europeu, algo surreal: fora dos muros, há um mercado muito concorrido onde se vende de tudo… de roupa a animais, de comida a carros, you name it! Tudo está ao monte, coberto de pó, pessoas e carros atropelam-se, enfim, outra realidade estranha para nós mas normal para os moçambicanos!

Esta escola cresceu em redor de uma igreja e está em franco estado de degradação (apesar de sofrido obras de remodelação recentemente). Mais uma vez, fomos extremamente bem recebidos pela directora da escola e pelo director pedagógico… e por um batalhão de crianças que nos seguiram e perseguiram por salas e corredores!

Quando me vi rodeada de tantos pretinhos aos saltos, a rir e a gritar «Vi-si-ta! Vi-si-ta!» só me apeteceu agarrar neles e levá-los a TODOS para casa. O coração subiu-me à boca, aos olhos, à cabeça, perante a felicidade estampada naqueles rostos pequenos e sujos. Apaixonada que sou por crianças, fui fazendo festinhas às escondidas mas distribuí paletes de sorrisos e piscadelas de olho que eles acolheram como se de água e comida se tratasse. Pelo ambiente circundante, percebe-se qual a realidade destas crianças, o que torna ainda mais enternecedor o calor com que nos receberam!

Quanto às instalações, não há palavras que descrevam, confesso. Recreio e campo para jogos e prática de Educação Física são um só, um só espaço e um só monte de areia. O edifício principal é enorme, escuro e vazio. Tudo parece coberto de pó. Vi um único computador, na sala da directora. As salas de aula que visitei são pequenos pavilhões térreos, com mesas e bancos de madeira escura e um quadro de ardósia, apenas. Algumas salas não têm porta ou têm apenas um «esqueleto» da mesma. A biblioteca tem uma tabuleta na porta com essa mesma indicação mas nada lá dentro, nem um livro, nem uma cadeira. Segundo a directora, as casas-de-banho são o grande problema daquela escola mas não nos mostrou onde eram, sequer (nem quis imaginar). Como fui «sequestrada» pelo director pedagógico, dei uma volta maior pela escola e falei com professoras: pude ver parte de uma aula (esta turma tinha apenas 40 alunos) e conversar sobre metodologias, livros, etc… Mesmo num ambiente diferente, as necessidades e as queixas dos professores são as mesmas em todo o lado, senti-me em casa!

 No final deste dia, sentia-me outra pessoa. Não fiquei traumatizada mas é impossível ficar indiferente. Há escolas boas em Moçambique, há certamente bons colégios privados na zona nobre de Maputo, mas aquilo que vi representa a maioria. E, mais uma vez, por muita vontade que haja, serão necessários anos para ver algumas melhorias. Porque uma pessoa sente-se impotente perante aquela realidade que nos esmaga a cada passo que damos na cidade.

Não fiquei traumatizada, mas sabe Deus (e a minha mãe assistiu via Skype) o que eu chorei em casa, já na Cidade do Cabo.

Tata, amiguinhos, dentro de dias teremos a terceira e última parte desta viagem! [Isto é que é fazer render o peixe, eheh!]

terça-feira, 19 de março de 2013

Maputo - o abraço de boas-vindas (parte I)


Já lá vai mais de uma semana, mas a agenda não me permitiu escrever sobre Maputo mais cedo; além disso, foi bom deixar esfriar as emoções para que isto não fosse um post demasiado lamechas!
Quando o Ruben e eu saímos era noite escura mas pudemos assistir ao nascer-do-sol no lounge VIP do aeroporto da Cidade do Cabo, com o Guillaume. A conversa estava tão boa que quase tivemos de correr para o avião. Esqueci-me, contudo, que estamos em África… o voo saiu com mais de 40 minutos de atraso, claro. O Mia Couto seguia no mesmo voo, mas não me perguntem se ele mastiga de boca aberta ou fechada ou prefere café a chá porque não sou dessas coisas!

Era um voo directo, numa espécie de avioneta, pelo que voámos sempre baixinho e pude ir apreciando a paisagem à medida que atravessávamos a África do Sul e entrávamos em Moçambique.
Gostaria muito de dizer que aterrar em Maputo foi o concretizar de um sonho, que vivi um turbilhão de emoções ao colocar o primeiro pé em solo moçambicano, que tinha o rosto banhado em lágrimas só de pensar na minha família materna… Isto é a vida real, lamento. E vão perceber o que quero dizer…

Assim que entramos em território moçambicano, é-nos pedido para preencher um pequeno papel com os nossos dados e informações breves acerca da nossa visita/estadia. Como somos pessoas honestas e sem nada a esconder, colocámos que o objectivo da nossa viagem era «negócios» e indicámos o hotel em que ficaríamos hospedados. Big mistake! Pediram de imediato o belo do visto que, claro, nenhum dos três tinha! Depois de uma difícil troca de palavras com os «oficiais» fronteiriços, lá se concordou em pedir que um dos nossos colegas locais viesse entregar uma carta da empresa «convidando» os três estrangeiros a permanecer no país durante uma semana. Pensei cá para mim Até que nem foi difícil, não tarda estamos do outro lado… Falta dizer que esta carta demorou quase 3 horas a chegar, mais do que a viagem da Cidade do Cabo a Maputo! Não interessa aqui abordar as razões da demora, mas viemos a saber que esta treta do visto de trabalho é aplicada desde Janeiro deste ano, com particular incidência a portugueses, brasileiros e chineses. Agora imaginem três gatos pingados (2 tugas e 1 brasileiro) em roupa de trabalho, cheios de calor, com alguma fome e sem nenhum sítio para sentar, sequer. Quase 3 horas em pé, a ver passar malta da Etiópia, Arábias e afins que, de turistas, pouco tinham! Quando a carta chegou, lá deixámos 80 dólares (cada um) ao Guebuza e pudemos finalmente entrar no país, à boleia do colega Sabino.
A minha mãe avisara-me relativamente à estrada que liga o aeroporto ao centro da cidade. Talvez por isso e porque aqui, na Cidade do Cabo, aquilo que liga o aeroporto à centro é uma cidade-satélite de barracas, não fiquei chocada nem surpreendida com o que vi. O maior choque é perceber que toda a cidade é mais ou menos aquilo que se vê à saída do aeroporto…

Referi várias vezes – também para não criar muitas expectativas – que esta era uma viagem de trabalho. A agenda estava cheia, sem qualquer espaço para passeios ou giros turísticos; além disso, sem nunca ter estado em Maputo, era difícil ter referências para conseguir localizar os «meus» espaços. Sabia que a minha mãe e família moraram na Avenida 24 de Julho, onde os escritórios da minha empresa ficam, mas vi logo que não ia ser fácil.
O resto do dia passou a correr, entre reuniões e caminhadas sob um calor escaldante. A minha mãe ia sendo actualizada quase ao minuto da minha localização, e comecei a perceber que estava em «casa»! Falámos mais tarde, enquanto me deliciava com a vista da baía, e o entusiasmo era imenso de ambas as partes… Foram 30 anos de histórias sobre Lourenço Marques, Boane e Matola, histórias de emoções e afectos, de tempos felizes que não vão voltar; nada está como dantes mas é impossível ficar indiferente quando se cresceu com esta mística, acreditem!

A vista do restaurante/bar do Hotel Girassol Bahía, edifício mítico da cidade.

 
E Maputo ficou a saber quem era a Vanessa quando o João e a Sofia apareceram à porta do hotel, ahah! Entre berros, guinchos e lágrimas, abracei a Sofia sem acreditar que era real… e ela só dizia «Não te vou largar mais!». O João assistia a este espectáculo com um sorriso de orelha a orelha!
 
 

Lá seguimos para a Matola, viagem de poucos quilómetros mas com filas intermináveis. Foi o primeiro contacto sério com a realidade: trânsito caótico em que a única regra é a lei da selva, filas gigantescas de pessoas para apanharem os machimbombos* e chapas*… Os machimbombos vão apinhados e os chapas até levam pessoas que não têm lugar para estar sentadas: acreditem no que vos digo, há pessoas com o rabo de fora ou com braços pendurados, naquilo que parece ser um concurso (daqueles que o Júlio Isidro fazia nas tardes de domingo) para ver quantas pessoas cabem num chapa… Autocarros da Carris ou metro à hora de ponta no pico do Verão são um luxo e um paraíso ao pé do que vi.
A Matola é uma cidade junto a Maputo, com mais habitantes que a própria capital. Era já noite e iluminação pública não é uma coisa que abunde por aquelas bandas mas, do que pude ver, está degradada, suja, quase abandonada (de cuidados).

A rua onde eles moram


Ainda fui à padaria com a Sofia mas ficámos por casa o resto da noite, a pôr a conversa em dia. Foi muito bom: estar com amigos, falar português, falar do Sobral, comparar experiências. O Nuno, irmão do João, também estava, ajudando a tornar a coisa ainda mais familiar.

Do que ouvi, não há dúvida de que é uma África diferente daquela em que vivo: mais lenta, mais dura, mais difícil, mais húmida! Mas eles estão bem e muito positivos, famílias, no worries! Foi bom perceber que temos a mesma percepção de que esta é uma experiência que nos muda, que nos faz ver o mundo de outra perspectiva, relativizamos mais, e que todos deviam vir a África para valorizar mais algumas coisas que tomamos por garantidas! [Para aqueles que, inchados e convencidos, acham que podem mudar o mundo, ahah, venham a África e voltam para casa no dia seguinte, com o rabinho entre as pernas!]
Foi aqui que dei o abraço-maravilha em nome da minha família e amigos, um abraço sentido, cheio de calor africano J Espero que tenham gostado da surpresa!

 
E o pretinho do outro lado da rua a gritar «Eu queria tanto ser essa árvore.» Ponham-lhe um sotaque bem africano e imaginem a minha cara...
 
 
 
Para não nos alongarmos muito, deixo o resto para um outro post... Tata!



* Machimbombo = autocarro de mil, nove e trócópasso, p´ra lá de velho e p´ra lá de apinhado de gente; chapa = carrinha Toyota Hiace a cair de podre, com gente a sair por todos os lados, e música tão alta que a pessoa quando se deita ainda tem o batuque nos ouvidos.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Diga lá outra vez... Trinta e três!


 
 
Vamos romper a cronologia dos factos e falar primeiro do meu aniversário (Moçambique fica para depois)!
O dia 12 começou bem. Acordei às 5h e pouco, com um sonho peculiar: sonhei que conhecia o Jon Bon Jovi e que ele me dava a oportunidade de escolher uma música para depois me dedicar num concerto. Recordo-me que a minha escolha foi o In These Arms. Só isto dava para um post, mas a verdade é que diz muito da minha verdadeira idade mental à beira de completar 33 Primaveras! O que será que vou sonhar daqui a um ano: conhecer o Justin Bieber ou que sou a Gata Borralheira?!

Peguei no telemóvel e deparei-me com uma raridade: a primeira mensagem veio directamente do Sobral, mais precisamente do meu irmão e família. De forma curta e grossa, mostrou o quanto gosta de mim aconselhando-me a correr depressa não fosse o Pistorius andar atrás de mim, ahah!
Antes de sair de casa, preparei um lanchinho para os meus colegas:

 
 Tarte de coco, paté-maravilha com tostas e bolachas salgadas, biscoitos de choc mint, butter lemon e canela, e bolo rei!!! Nada mau, não vos parece?

 
Apesar de ter passado a manhã numa formação, a nossa assistente chamou os colegas mais próximos e juntaram-se no meu gabinete. Quando cheguei, às 13h, pouco sobrava, mas do paté, nem vestígios! Durante a minha ausência, foi marcada uma festa a Tamara e a Lauren poderem passar uma noite inteira com uma taça de paté, ahah! Recebi muitos abracinhos e até alguns presentes (do R., da F. e da A.):

 

 
A tarde foi passada a trabalhar, claro, e a tentar ler as dezenas de mensagens e emails que me iam chegando (incluindo uma mensagem muito emocionada do meu pai e outra bem surpreendente de alguém com quem não falo há anos), fotos de babies e bolos, fotos do Sobral, um vídeo maravilhoso com a star Maria… senti-me especial!

Numa ocasião rara, saí às 17h, em ponto, pronta para a festa. Os meus senhorios, sabendo que era o meu aniversário, organizaram um braai e convidaram os Kendall (para quem costumo fazer babysitting) e os Davies (donos do B & B onde fiquei quando cheguei). A verdade é que nos conhecemos todos num contexto semelhante e foi muito bom eles terem feito uma surpresa desta natureza. Foi tudo organizado durante a minha viagem a Maputo, sem o meu conhecimento, e só me pediram que fizesse o bendito paté!
A temperatura durante o dia ultrapassou os 34 graus, soube bem descontrair no jardim. Foi um final de tarde muitíssimo agradável, com algum álcool, boa comida e conversa animada.

 
Megan, Amy e Heather (à direita)

 
 A Amy, felicíssima com a fita de cabelo improvisada cá pela je...

 
Após o jantar, apareci com um bolo de chocolate que fez as delícias das meninas.




Foi muito curioso ouvir Happy Birthday to You…(com direito a versão em Afrikaans), mas mantive a tradição tuga de pedir um desejo enquanto mordia a vela!


 
Bolo com cuspo alheio!


Só consegui morder 1 vela; reparem na Amy, à minha esquerda... não resistiu a imitar-me.
 

Tendo em conta que cheguei há apenas 3 meses, foi difícil não emocionar-me com a atenção e a disponibilidade destas famílias. Para além da presença deles, tive direito a presentes bem pessoais e personalizados, que mostram o quanto já me conhecem:
 
Até o papel de embrulho foi feito pelas piquenas.

 
Com a ajuda da mãe... não é delicioso?


 Livros personalizados, para não me esquecer!

 

 Mas a surpresa maior estava ainda no segredo dos deuses. Depois de mensagens algo suspeitas (da minha mãe e da Ritinha), recebo uma chamada Skype que me deixou o coração atestadinho de amor! Comecei por ver a Ema e ouvi-la chamar pela «Tia!», mas, aos poucos, foram surgindo no ecrã tantas outras caras familiares que me deixaram sem palavras… Do outro lado do mundo, estavam familiares e amigos que se juntaram frente a um computador, com um bolo, e cantaram os Parabéns… e as velas, claro, apagadas pelas minhas princesas lindas! Estou a escrever este texto e as lágrimas ainda me escorrem pela cara… foi TÃO bom, TÃO melhor do que qualquer prenda cara… é possível viver sem malas de 200€, mas não sem o amor e o carinho daqueles que nos são próximos.
Deitei-me depois, já bastante cansada, sem conseguir responder a todas as mensagens e emails. [Entre emails, mensagens privadas e no mural, contei mais de 250…] Prometo fazê-lo nos próximos dias, peço-vos apenas alguma paciência, pode ser?!

 
Muito obrigada a todos por terem tornado este dia tão especial! Perto ou longe, espero que possamos continuar a partilhar bons momentos nos próximos 365 dias!

sábado, 2 de março de 2013

O «regresso»


 
 
Daqui a umas horas estarei a voar rumo a Maputo. O bilhete diz Maputo, o mapa também indica Maputo como a capital de Moçambique.
Mas o meu coração sabe que vai regressar a Lourenço Marques. Lourenço Marques, a cidade onde nunca vivi mas que sinto como casa.

Vou abraçar uma árvore e dizer baixinho: «A Beatriz Galvoa manda um abraço.»

[E depois vou agarrar e abraçar muito o João e a Sofia!] 

Volto já!

sexta-feira, 1 de março de 2013

Beleza exótica


Vejam lá o logo... :-)
 
 
 
Ontem, num vida e caffè, cadeia de coffee shops de inspiração portuguesa (há pastéis de nata, meias de leite, galões, pão com chouriço).


Empregado: Hi, how are you doing?
Eu: Great, thanks. And you?

Empregado: Much better now... What are you having?

Eu: A small cappuccino and an apple/cinnamon muffin, please.
Numa dinâmica de Starbucks, o empregado grita o meu pedido para o colega do lado. Mas aqui são 4 empregados atrás do balcão, pelo que a coisa ganha toda uma dinâmica tribal: eles gritam, cantam, sei lá.
Empregado: And how was your Thursday, lady?
Eu (porque só percebi a pergunta à 3ª tentativa): Good, thanks. Sorry about that, I’m still struggling with your accent, didn’t get the question.
Empregado: Oh.... and where are you from?
Eu: Portuguese. I was hoping to eat a pastel de nata, but they’re quite popular, apparently, not one left at 6 pm.
Empregado (com sotaque afectado): Oh... Fala português?
Eu: And so do you! Well done!
Empregado: Obrigado. Here’s your request. É muito linda, lady.

 
Nada como passar uma temporada noutro continente para o nosso ego ganhar toda uma nova vida.