Como já referi, foram 30 anos a ouvir histórias de Lourenço
Marques, Boane, Matola, Beira, Bilene (praia) … Maputo era só uma palavra no
mapa. Por isso, assim que se confirmou a minha viagem a Moçambique, comecei a
praticar o nome actual da capital. Nos livros moçambicanos, o período do colonialismo
é associado a conceitos como opressão e escravatura e os Portugueses são
retratados da pior forma possível; ora, falar da minha família «moçambicana» e
dizer Lourenço Marques em vez de Maputo não me parecia ser o melhor
cartão-de-visita!
Por muito que nos preparemos para aquilo que vamos encontrar
à saída do aeroporto, é inevitável para o cidadão europeu comum uma certa
sensação de choque. Ah, e tal, o que não
falta aí são fotos de África, Vanessa! Claro que sim, e o meu trabalho
passa por ver fotografias de Moçambique todos os dias. Mas, como referi
anteriormente, estar na Cidade do Cabo ou em Lisboa a ver fotografias no
computador e pensar «Ah, coitadinhos, que miséria…» não é a mesma coisa que
estar no local e verificar a realidade com os nossos próprios olhos.
Até ao centro da cidade, são quilómetros de casas/barracas
velhas e sujas, cujas paredes exteriores estão cobertas de publicidade antiga
(já não me lembrava de alguns logos!) ou ostentam sinais/indicações de que se
trata de um café, um electricista ou um cabeleireiro. As pessoas arrastam-se
pelos pequenos corredores labirínticos que separam as casas; outros sentam-se
no chão, na rua. Para quem conhece alguns dos bairros problemáticos da Amadora,
nem que seja de longe, é um cenário idêntico, mas com uma dimensão gigantesca.
As estradas têm algum alcatrão que se encontra, todavia, em
franco estado de deterioração e muito empoeirado. Os buracos são mais que
muitos e conduzir nos espaços onde deveriam existir separadores e passeios é
uma prática comum. Não existem traços nas estradas (embora existam nas
autoestradas exploradas pela África do Sul) mas, caso houvessem, não acredito
que os respeitassem… a filosofia que parece reinar é: se a largura da estrada
dá para 3 carros, por que razão haveremos de conduzir em 2 faixas? Este
trânsito caótico verifica-se no centro da cidade, claro, principalmente nas
principais avenidas.
Estava muito ansiosa por conhecer Maputo e não raras vezes
as lágrimas caíram-me pela cara. Eu conheci a cidade através dos olhos da minha
mãe (avó e tios, também), as minhas «memórias» eram outras e percebo agora o
que leva muitos retornados a não querer regressar a Moçambique.
Independentemente do que aconteceu, o povo moçambicano não conseguiu sequer
manter o que foi construído até 1974, quiçá foi um desprezo consciente e uma
atitude destrutiva propositada, como que para apagar o passado colonialista.
Toda a cidade me pareceu poeirenta, suja, degradada, sem
cor, que se move lentamente sob um calor húmido e atmosfera sufocante. No final
do primeiro dia, coloquei-me a questão habitual sempre que visito um novo país:
«Eras capaz de trabalhar e viver aqui?». A resposta foi rápida: não.
Mas África tem a sua mística e concordo a 200% com a Sofia
quando diz que primeiro estranha-se, depois entranha-se. De repente — e muito
graças à maravilhosa vista do 20º andar — pude ver verde, muito verde. Água. E
comecei a ver a cidade e as suas gentes de maneira diferente.
Caminha-se muito bem pela cidade (apesar da ausência de
passeios e dos enormes buracos e montes de pedras). O facto de a Avenida 24 de
Julho ter tantas árvores facilitou a deslocação entre as várias reuniões e o
escritório e, apesar do passo gigante e rápido do Ruben, pude ir apreciando
pequenos pormenores como as fachadas dos edifícios, as lojas, as pessoas.
Começamos por ter vontade de tirar fotografias a tudo, qualquer canto se
assemelha aos emails que recebemos com imagens de África e das quais nos rimos
tanto… Uma «Loja das Damas» com lingerie e cintas penduradas do lado de fora da
montra junto a uma Levi’s; jipes Mercedes estacionados junto a chapas
velhos e com portas que parecem cair; vendas ambulantes de qualidade duvidosa
ao lado de edifícios de escritórios… Os próprios nomes das lojas levam-nos às
lágrimas. E se não temos tempo de ir ao supermercado, não faz mal: de
telemóveis a pensos higiénicos, de sapatos a mesas de café, tudo se vende na
rua… A jantar numa esplanada ou a ver montras, somos constantemente
«assaltados» por vendedores de rua e até ao último dia não parei de me
surpreender com a vasta oferta dos seus serviços (tive pena de não ver serviços
de manicure, como a Sofia me contou!)
Da minha experiência, as pessoas pareceram-me extremamente
humildes e educadas. Onde quer que entremos, todos nos cumprimentam; até mesmo
na rua as pessoas passam e dizem «Bom dia» ou «Boa tarde». Estranhei até o
tratamento dos meus colegas, sempre com «Senhora Vanessa, como está?», «Senhora
Vanessa, está tudo bem, graças a Deus.», «Senhora Vanessa, não se incomode, eu
levo as suas malas.». Quis dar 2 beijinhos a toda a gente mas alguns
assustaram-se, acho eu! Claro que foi apenas 1 semana mas só tenho a dizer que
se confirmou a ideia de que é terra de boa gente, sem dúvida, adorei o
acolhimento caloroso por parte de todos!
Mesmo com trânsito caótico, edifícios abandonados e pilhas
de lixo (os contentores deixam-se de ver, não é exagero), habituamo-nos e
deixamos de reparar no menos bom.
É uma cidade lindíssima e sei que o país é muito mais do que
Maputo. Mas está longe de atingir os objectivos a que os seus governantes de
propõem. A burocracia é assustadora; a corrupção existe, embora menos grave do
que em Angola; tudo demora e há sempre 1001 razões para que algo não apareça
feito. A «lentidão» é um modo de estar na vida que está enraizado e que lhes
corre no sangue. Os Europeus não podem chegar e esperar conseguir mudar tudo
num par de meses… nem num par de anos, sequer! Se fosse fácil, já teria
acontecido, certo?
E, no meio disto tudo, onde andava a Lourenço Marques da
minha família? Apesar do mapa desenhado e enviado pela minha mãe, vi que seria
difícil descobrir os spots! Curiosamente, descobri-os graças aos anos de
histórias… Ao passar pela Pastelaria Cristal, pensei Acho que a Escola Comercial é em frente… e lá estava ela! Quando me
apercebi que estava na Sé, disse logo em voz alta «E a Câmara Municipal fica aqui
ao lado!». E quando me apontaram a Assembleia da República, surpreendi os meus
colegas de Maputo ao afirmar, inchadíssima, «Onde era o Cinema S. Miguel!» O
Ruben olhava para mim, como que a duvidar da minha sanidade — querido chefe,
nunca fui e nunca serei sã, como já deu para perceber ao fim de 4 meses! — mas
eu estava orgulhosa e feliz por ver que alguma coisa tinha ficado do que ouvi
ao longo da minha existência!
Porque só fui ao Alto Maé de carro, não tive oportunidade de
ver e fotografar devidamente o cruzamento da Avenida 24 de Julho com a Avenida
da Tanzânia, onde parece que toda a minha família viveu. E o mais triste é que
tive tempo de tirar fotografias aos 3 pontos do cruzamento, excepto ao que
corresponde ao lugar exacto onde a minha mãe viveu (vi o que lá está agora, que
já não é a vivenda de que me fala, mas não tenho fotografias).
É para mim muito difícil escrever sobre este aspecto da
viagem sem pensar na minha avó e sem que as lágrimas caiam sem que me consiga
controlar. Por isso, peço desculpa por não me «esticar» mais… não é fácil e até
eu fico sem palavras.
Ficam boas recordações: as vistas, as pessoas, o calor
húmido, a hospitalidade, as escolas, os meus pretinhos aos saltos, o contacto
com a realidade, o jantar na Matola e a noite de trovoada na esplanada, a 4, a
beber cerveja, a ver o SLB, com a sensação estranha de estar em casa. Fica a
magia de África. E a promessa de voltar à «minha» terra.















