domingo, 29 de setembro de 2013

Despedidas e novos começos


A sexta-feira passada foi muito divertida, com toda uma série de experiências novas: mais uma vez, apenas com sul-africanos e num ambiente de danças de salão. Apesar de ter dito desde o primeiro minuto que preferia estar em cima de uma bicicleta, dentro de uma piscina ou falar de futebol, tive de ceder um pouquinho e permiti que me ensinassem uns passos de quizomba, salsa e merengue. Não me dei mal mas não é «a minha praia»; no entanto, disse que podia oferecer os meus serviços para traduzir as letras (tudo em português e espanhol).

Diverti-me tanto que perdi o telemóvel, como expliquei no Facebook. Nem sequer posso culpar o álcool porque não me enfrasquei, fiquei-me pela cidra. Quem estava comigo ficou mais aflito, tal o peso da responsabilidade de tomar conta de uma menina estrangeira, mas que fazer? Depois de todas as buscas possíveis e imaginárias pela lendária Long Street, lá nos rendemos às evidências, e disse mesmo «Nada de stress. Há milhares de crianças a morrer de fome, há miséria por todo o lado. É apenas um telemóvel.» Uma pessoa chega a África e aprende logo a relativizar muita coisa.

Depois de todo o dramalhão da madrugada, foi mais uma aventura para recuperar o número. Comprei outro telemóvel, que remédio!, e segunda-feira lá regressarei ao mundo dos vivos. É de facto impressionante como nos tornamos dependentes do telemóvel, especialmente quando temos email, Facebook, WhatsApp e todos os contactos mais do que preciosos recolhidos nos últimos 10 meses. A nossa vida não depende do telemóvel, nós é que nos comportamos dessa forma.

Foi, por isso, um fim-de-semana mais do que calmo aqui para estes lados. Dormi (MUITO) e comecei a fazer as malas para a mudança. Almocei com a Fatima e a família (são 19:00 e ainda estou cheia – depois queixo-me que a roupa já não me serve) e tenho aproveitado este final de tarde para responder a alguns emails e mensagens de amigos e familiares. Diz que estava a decorrer uma espécie de arraial tuga na Waterfront, com missa, bênção de barcos, música e eleição de Miss e Mister qualquer coisa, mas a próxima semana vai exigir muito de mim e eu já não vou p’ra nova.

Amanhã será o último dia de trabalho da Fatima. Foi a pessoa que me foi buscar ao aeroporto no dia em que cheguei e foi muito mais do que uma assistente: foi família e amiga. Foi com ela que passei o Natal e a Páscoa; foi ela que me aturou em todos os momentos de stress laboral; foi ela que me viu nos momentos menos bons, quando a saudade apertou. Mas partilhámos muuuuuiiiiitas gargalhadas, lágrimas de alegria, anedotas, cervejas, vinho, muuuuiiiiiiiiiiiiiiiiiiito vinho, muita comida. E é por isso que será um dia difícil, que vai culminar num jantar algures num restaurante português. Com muitas lágrimas.

Depois deste adeus, uma priority meeting (a mais dura desde que aqui cheguei) logo pelas 8:00 da matina. Estas reuniões sugam-me quilos de energia (antes me roubassem quilos de calorias e massa gorda, seria divinal), já sei que vou sair de rastos. Às 16:00, vou buscar as chaves do novo apartamento. E no próximo fim-de-semana, a mudança definitiva para a cidade. Pelo meio da semana, jantar com os Davies e a despedida da Amy.

Ah, que bela semana a que me espera!



quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Blisters for Bread 2013



As coisas aqui pelo estaminé têm andando meio paradas, bem sei, mas nem sempre há disposição/tempo/assunto. Quando vim para a África do Sul, decidi que tinha de viver e aproveitar a experiência da melhor forma possível, mesmo que isso implicasse estar ausente da «vida virtual». O facto de o emprego exigir muitas horas em frente ao computador também não ajuda: já pus o trabalho à frente da vida social (não vale a pena, está no meu ADN); além disso, há dias em que chego a casa sem qualquer vontade de pegar no portátil.

Mas há que fazer um esforço… Não sou blogger profissional mas este cantinho tem sido uma experiência para lá de boa.

Há umas semaninhas, aderi ao desafio lançado pela empresa de participar na caminhada Blisters for Bread 2013 (qualquer coisa como «Bolhas por pão»). À semelhança de provas idênticas organizadas em Portugal e um pouco por todo o mundo, esta tratou-se de uma caminhada solidária sob o lema You Can’t Teach a Hungry Child. Uma oportunidade para fazer uma bonita caminhada pela cidade, ajudando uma bela causa: o valor das inscrições foi direitinho para um programa que trabalha no sentido de garantir que as crianças mais necessitadas do Western Cape começam cada dia de aulas com algum alimento no estômago. A empresa tratou de tudo, desde as inscrições às t-shirts, bonés, bandeiras, alimento. Na sexta-feira antes recebemos o pacote com toda a informação e decidimos que o sábado seria sossegadinho (entenda-se, sem saídas e sem álcool) para estarmos fresquinhos no domingo. Eu inscrevi-me na prova dos 15 km, com outros 10 colegas. Os restantes elementos da equipa Pearson (total de 115!) fizeram 10 ou 5km.

Estando em África, estas coisas acontecem cedinho… pelas 7h e pouco de domingo já eu estava junto ao estádio de Cape Town, em Green Point (que devem ter visto na TV, por altura do Mundial de 2010, e recinto que costuma receber os grandes artistas internacionais). Mesmo para os 15 km, eram centenas de pessoas… fiquei mesmo impressionada!

Em pleno Inverno, fomos presenteados com um magnífico dia de Verão (as temperaturas rondaram os 20 e muitos graus), o que ajudou bastante. Devo dizer que, para um evento desta dimensão, a organização foi quase perfeita… nada a apontar. Muitos voluntários a indicar o caminho, pessoal a puxar pelos malucos que se atreveram a fazer a prova em ritmo de «corrida», postos de abastecimento com água, coca-cola, gomas. O percurso já eu conhecia — Green Point / Three Anchor Bay / Sea Point / Bantry Bay / Clifton — pois costumo fazer parte do mesmo nos fins-de-semana, sempre que o tempo o permite.

A Lynley, a Taren e eu conseguimos fazer os 15 km em cerca de 2 horas (era tanta gente que por vezes se tornava difícil caminhar num ritmo mais acelerado) e terminámos ao mesmo tempo que o resto do «nosso» grupinho, que optou pelos 10 km. No final, lá fomos encher o bandulho com uma bela shoarma, oferta da empresa.

Aqui estão algumas fotos da coisa…
 
 
A bela da t-shirt corporativa
 
 

 
Pormenor da vista - que partilhei no Facebook
 
 

 
Shoarma às 11h e pouco da manhã - só na África do Sul
 
 

 
O «cantinho» da família Pearson - causámos impacto!
 
 

 
Juntinho ao estádio - com imensos espaços para comer, beber, e até música ao vivo
 
 

 
A Lauren e a Ashleigh
 
 

 
Descaradamente roubado da rede social da empresa
 
 

 
As crianças Pearson
 

 

E depois da shoarma, a Lauren lembrou-se que aquilo tinha marchado bem com uma cerveja. E eu lá sugeri que podíamos ir até à Waterfront e abancar numa esplanada… ora bem! Ao som dos avisos da Ashleigh (Vejam lá o que bebem! Vanessa, toma conta da Lauren! Portem-se bem!), lá segui com a Lauren e a Tegan para a Waterfront. E correu tão bem que ficámos mais de 6 horas sentadas na esplanada, indiferentes ao facto de estarmos com trajes desportivos, num local cheio de gente gira.
 
 
Pure BLISS.
 
 
Houve medalhas para todos os participantes - mais uma para a colecção!
 

terça-feira, 10 de setembro de 2013

E 9 meses depois, a cidade.


Sempre foi meu objectivo morar no centro da cidade mas cheguei na pior altura do ano no que toca a alugar casas na Cidade do Cabo. Dezembro e Janeiro são meses de férias, de Verão, é a época alta. E muitos procuram alugar a pessoas que visitam a cidade com esse propósito. Por outro lado, o sul-africano é muito dado a alugar a sua casa por 2 ou 3 meses, período em que estará no estrangeiro, em trabalho, por exemplo; preferem alugar a alguém que pode tomar conta do espaço do que deixar a casa vazia, à mercê de larápios. Isso e um total desconhecimento da cidade e arredores fizeram com que me mudasse para o anexo dos Davis, que também tinham acabado de chegar de Londres.

Eles não me conheciam de lado algum mas houve empatia imediata desde o primeiro minuto. Também deve ter ajudado o facto de ter dito que trabalhava em manuais escolares para Angola e Moçambique: a Amanda, para além de mãe, é terapeuta da fala e tem uma empresa própria, em Inglaterra, que desenvolve a sua actividade em escolas, principalmente. O preço era mais do que apelativo e o facto de ser, literalmente, ao lado do escritório também ajudou.

Foi o melhor que me aconteceu, a vários níveis: vou a pé para o trabalho e tenho a companhia de uma família jovem que nunca me tratou como inquilina mas como amiga e parte da família. Como referi aqui na altura, ofereceram-me um jantar de aniversário e não raras vezes fui convidada para vários jantares; sempre que estão fora, sou eu que tomo conta das cadelas (tendo acesso à casa toda); faço babysitting for free. E as filhotas… Já aqui contei, a Amy é a minha fã número 1.
Com tudo isto, fui adiando a mudança para o centro da cidade. Mas os fins-de-semana em Pinelands começaram a matar-me. Não há cafés com gente nova, solteira. A população é constituída por famílias ou velhotes que vão ao supermercado com os andarilhos. A partir das 18h e pouco já não há gente na rua.

Mesmo estando a 2 passos da cidade, isto começou a consumir-me. Por isso, quando apareceram 2 apartamentos no centro, com os requisitos mínimos, tratei de ir ver. E se perdi o primeiro por uma questão de horas, o segundo já não me escapou… e depois de 2 dias a preencher papelada, é meu por 1 ano. Complexo com segurança 24h, estacionamento, piscina, ginásio, mobilado, cozinha equipada e vistas para a montanha. Não tem varanda, mas enfim… a pessoa habitua-se. O quarto (suite) é pequeno mas a cozinha e lounge têm espaço para reunir amigos, ter gente a dormir no sofá, no chão… Está tudo preparado para receber os meus pais (e outros que por cá queiram aparecer)!

E como foi contar aos Davis? Pois, foi um drama, à semelhança de muita coisa que tem acontecido por aqui. Quando preenchi os papéis para me «candidatar» à casa, uma das milhentas informações pedidas era o contacto do actual senhorio (para futuras referências). Eu lá dei o número de telemóvel, email, etc., mas avisei a imobiliária: Eles não sabem que eu ando à procura de casa, é a primeira vez que estou a «candidatar-me», por favor não lhes telefonem. E não pensei mais no assunto.

Quando, nesse dia, cheguei a casa, quase de noite, já estoirada, veio a família em peso esperar-me ao portão… Vanessa, are you leaving us??????????

Em bom português, se eu tivesse tomates, tinham-me caído ao chão. E fiquei sem reacção, mas com lágrimas nos olhos. Lá me contaram que, do nada, receberam um telefonema a pedir informações sobre a minha pessoa, se era de confiança, se pagava a renda, bla bla. Isto do nada. Eu mal abria a boca, a Amy só gritava e os pais a quererem saber se eu me sentia mal com eles, se faziam muito barulho, se eu estava aborrecida, enfim, o que é que eles tinham feito para eu decidir ir embora sem dizer nada.

E se eu em ambiente profissional sou uma coisa, nestas coisas sou uma atada e choro porque não consigo dizer que não a ninguém. E se em português é mau, explicar em inglês, com receio que alguma coisa seja mal interpretada, é ainda pior.

Lá resumi a coisa da melhor forma possível, reforçando 1001 vezes que a decisão de mudar para a cidade não estava relacionada com eles, de forma alguma, e que esta tinha sido a primeira vez que tinha ido ver um apartamento nestes meses todos. Também não era definitivo: se o apartamento estava no mercado há tanto tempo, era porque a dona era bastante esquisita e selectiva, o mais provável era eu ir acabar na eterna lista dos rejeitados. Mas a Amanda sorriu, de forma confiante, e só disse: It’s yours, believe us.
 
E, de facto, foi muito fácil. A menina sul-africana, que trabalha em Amesterdão, ficou encantada com as referências pessoais e profissionais, informações bancárias e mais que tal, e assinou o contrato em minutos.
No dia seguinte, quando obtive a aprovação, lá falei com os Davis, de forma mais calma… Eles foram impecáveis e perceberam os meus motivos. Nada que eu não esperasse mas não era desta forma que eu queria que eles soubessem…

Hoje, uma semana depois, contaram à Amy que a Vanessa se ia embora… mas isso é matéria para outro post!