segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Primeiras impressões de Luanda e algumas (e quase únicas) fotos


Pré-aviso: este é um relato breve da minha experiência. Haverá com toda a certeza 1 675 498 pessoas com opinião diferente, mas foram estas as minhas impressões do pouco que vi de Luanda.

Depois de ter estado em Maputo em Março — e apesar de já muito ter lido e ouvido sobre Luanda, porque todos temos amigos e/ou conhecidos que lá estão/estiveram em trabalho — achei melhor manter as minhas expectativas muuuiiiiito por baixo. Foi o melhor que fiz: nada me chocou, em particular, e até fiquei surpreendida, pela positiva, com algumas coisas que vi.

Como pedi para ir à janela, pude apreciar a chegada à cidade que consiste, essencialmente, em sobrevoar quilómetros e quilómetros de barracas. Não estou a exagerar… são quilómetros e quilómetros de «barraquedo».

Depois de uma muito demorada passagem pelos serviços de imigração, a primeira sensação à saída do aeroporto é a de estufa. Céu nublado, calor, ar pesado, aquela sensação de sufoco própria de África. E para quem chega vinda de Cape Town, com a sua aragem fresquinha, ui!

A partir deste momento até à hora do regresso foi puro trabalho e muitas horas sentada no carro, parada no trânsito. O motorista andou connosco de manhã à noite e mal nos deixou andar a pé. Se em Maputo não tive muitas oportunidades para tirar fotografias, em Luanda só pude registar lugares e vistas a partir do banco de trás do carro…

O trânsito é, de facto, caótico. Os poucos semáforos que funcionam nem sempre são respeitados. As estradas são alcatroadas mas não há grande necessidade de traços no pavimento porque o que impera é a lei da selva ou coisa parecida: se há 4 faixas em cada sentido mas até dá para 6 carros, porque não dar um jeitinho para caberem todos? O «pisca» também não é para todos. Às tantas, parecia que estava numa mega pista de carrinhos de choque mas sem a parte dos choques. Por várias vezes, e mesmo no banco de trás, fechei os olhos e encolhi-me toda porque pensava que íamos bater em alguém ou que algum jipão se ia «enfiar» no nosso carro. Apesar disso, acho que não é difícil a orientação na cidade: no segundo dia, o motorista perguntou se eu já lá tinha estado porque já sabia para que lado ficava o hotel, qual o caminho exacto para a Feira, etc. O Guillaume apelidou-me logo de GPS!

Por duas ocasiões, o motorista conseguiu «cortar caminho»: enfiou por uns guetos e, mesmo a conduzir a 30 km/h, pelo meio de barracas e buracos, lá nos fez chegar mais depressa ao destino.

Segundo o motorista, o trânsito também se acumula nas principais vias porque as estradas secundárias que serviriam como alternativa estavam fechas. Motivo? Construídas por chineses, ou estavam incompletas ou incapazes. A este propósito ouvi o primeiro elogio aos portugueses: «A construção portuguesa é muito boa, bem melhor que a brasileira.»

No que diz respeito à construção, os extremos convivem quase pacificamente: hotéis de 4 e 5 estrelas com vista e mesmo ao lado de barracas, edifícios novinhos em folha junto a outros antigos, sujos e algo degradados. No entanto — e foi a impressão com que fiquei — é uma cidade um pouco mais cuidada que Maputo: os edifícios coloniais não estão tão ao abandono, alguns foram mesmo recuperados. Há muita construção nova. MUITA. Quase não é possível obter um plano da cidade sem uma grua; há edifícios de escritórios e hotéis a nascer que nem cogumelos. As construtoras são, na sua maioria, portuguesas: Mota-Engil, Teixeira & Duarte, Somague, etc. Não é necessário o interregno para publicidade gratuita.

A Marginal está muito bem arranjada, com as suas palmeiras, espaços verdes, campos de jogos. E trata-se de um work in progress – é uma obra para continuar.

Aqui ficam algumas fotografias iradas, como disse, do interior do carro:




 
Vista do bar-esplanada do Hotel Continental



 
Cheguei a ver senhoras a levar na cabeça uma bilha de gás. Uma vénia a estas mulheres.
 

 
A nova Assembleia. Uma barraquinha, como se vê.
 


 
White House, mas em rosa.
 






 
Esta imagem não é do centro da cidade, é já na estrada em direcção à FIL.
 
 
 
Tendo passado os dias em reuniões e no pavilhão da FIL – Feira Internacional de Luanda, os poucos momentos de lazer ficaram para a noite.
Na primeira noite estivemos no bar-esplanada do Hotel Continental, mesmo junto ao mar. Na note seguinte, jantámos na residência oficial do embaixador inglês (fiquei sentada ao lado dele, que chique!). As duas últimas noites foram passadas na Ilha de Luanda (que, na verdade, é uma Península), no Lookal e no Cais de Quatro, locais de referência para a maioria dos tugas.
O Lookal fica, literalmente, na praia e o mar toca-nos nos pés; o Cais de Quatro fica do outro lado da Ilha e tem vistas magníficas da cidade de Luanda. O ambiente, em ambos, é tuga; para ser honesta, parecia que estava num restaurante junto ao Tejo ou em Cascais: excelente ambiente, boa música, comida deliciosa. A única coisa menos boa é o preço… mesmo não tendo comido os pratos mais caros da ementa, gastámos entre 65 e 80 dólares por refeição. Cada um.
Algumas fotos do Cais de Quatro:
 





 
 
 
E quanto a «turismo», estamos falados. Claro que houve episódios cómicos ou não seria uma viagem à la Vanessa, mas ficam para outro post... E o que a «madrinha» Vanessa se riu em Luanda...
 
 



domingo, 27 de outubro de 2013

Update - a pedido de algumas pessoas


Peço imensas desculpas aos mais cuscos, ups!, aos mais interessados pela ausência de histórias e relatos de episódios cómicos ou melodramáticos, mas tenho andado relativamente ocupada com afazeres profissionais e, como é possível constatar através do Facebook, com afazeres «sociais» também.

A vida no novo apartamento está a correr muito bem. Adquiri aquilo que era fundamental e que a casa não tinha (chaleira eléctrica, torradeira, copos e talheres) e tratarei do resto da decoração aos poucos. A verdade é que apesar de gostar de ver casas decoradas, não é o meu forte (sou muito pouco gaja e até aqui já comentaram que eu sou workaholic). A minha casa de Lisboa foi sendo decorada muito lentamente, muitas vezes como resultado da pressão de terceiros, e recordo-me de ter pedido ao meu pai para pendurar um candeeiro de tecto no quarto poucos dias antes de vir para a África do Sul. Sim, foram 7 anos a olhar para uma mera lâmpada no tecto do quarto. De qualquer forma, o meu objectivo é trazer fotografias de Portugal para personalizar verdadeiramente este meu novo espaço. Fotografias são o meu item decorativo preferido: além de podermos encontrar molduras a preços extremamente acessíveis conferem aos espaços muito calor humano. E estando longe da família e dos amigos, nada como me fazer rodear deles de uma outra forma.

E como é isto de estar na cidade? Bom, sou pessoa para sair do escritório à sexta-feira e ir para um bar com colegas. Depois as colegas convidam amigos, que também conhecem outras pessoas, e acaba tudo a beber cervejas e a comer nachos até à noite. Para vir para casa, ou apanho uma boleia ou um táxi. E no segundo fim-de-semana (que foi o fim-de-semana passado), já começaram os «filmes» de receber chamadas ou mensagens via WhatsApp durante a noite. Este é apenas um exemplo:

— Vanessa, estavas a dormir?
— Hmmmmmmmmm. Que horas são?
— São 3 da manhã.
— Claro que não estava a dormir, X. Estava acordada à espera da tua chamada.
— Estou aqui ao pé do teu prédio.
— Vai para casa e vai dormir. Eu consigo ouvir os teus amigos. Alguém que te leve para casa. Deixa-me dormir.


Não, não estamos a falar de uma conversa mantida há 10 anos, algures em Lisboa ou no Sobral, com amigos da terra ou colegas de curso. Isto passou-se há uma semana, na Cidade do Cabo, em inglês, com pessoas com mais de 33 anos. E a Lauren estava comigo (ficou a dormir na minha casa), por isso, há testemunhas. Como disse a minha cunhada, parece que estou novamente na universidade!

Continuo sem conseguir ver o focinho do vizinho do lado. Ouve muita música e tem horários diferentes. Os vizinhos jeitosos, pelo que me apercebi, moram no 1.º e 2.º andares. Um dia, cansada de esperar pelo elevador, decidi usar as escadas e foi todo um mundo novo que se me surgiu… um mundo de moços bem-constituídos, loiros e de olhos claros que usa as escadas e não o elevador. Não é preciso dizer, que desde então, só voltei a usar o elevador uma vez, para ir despejar o lixo nos contentores do prédio. Há quem vá ver montras para os centros comerciais, eu lavo as vistas nas escadas do prédio.

Também não tenho passado muito tempo em casa. Já me converti ao estilo de vida africano e sou menina para estar acordada a partir das 5h e pouco da manhã. Às 6h, já há trânsito e, vivendo eu na rua do Parlamento e em frente a alguns edifícios governamentais, vejo muita gente a chegar a essa hora aos respectivos empregos. Assim, às 7h já eu vou a caminho de Pinelands. Passo quase 12h por dia no escritório e, quando chego a casa, sento-me no sofá, a contemplar a montanha, a ouvir os barulhos da cidade, sem qualquer necessidade de ver TV (abri uma excepção para os episódios das novas temporadas de Revenge, Scandal, New Girl, que ainda não chegaram à África do Sul mas que a minha dealer consegue obter poucas horas após estrearem nos EUA).

Os fins-de-semana têm sido muuuiiiito ocupados: The Color Run, almoços, festas de aniversário que começam de manhã e terminam à noite, abertura de restaurantes, you name it. Tal como disse a minha colega Ashleigh, não é preciso muito para me convencerem… só costumo perguntar local e se haverá comida e bebida. Se conheço todas as pessoas? Não! E saio de lá sem saber metade dos nomes (mas todos sabem o meu porque sou nova) mas não é coisa que me preocupe. Mais tarde ou mais cedo, vou encontrar estas mesmas pessoas noutras festas! E se Lisboa é um bairro, a Cidade do Cabo é um beco. Um mini-beco.

Nem todos sabem, nem se apercebem, mas eu sou extremamente tímida e esta nova vida tem-me obrigado a um esforço extra de sair mais, falar mais, conviver com pessoas que nunca vi. Para não mencionar o facto de que tudo envolve comida e bebida e a minha roupa começa a acusar os excessos (como não me ponho em cima de uma balança há anos, é mesmo pela roupa e pelo espelho que controlo a coisa).

Também por isso, vou tentar reservar os domingos para descanso e cozinhar as refeições para o resto da semana — antes ia à casa dos pais buscar sopinha da mãe e os restos do fim-de-semana… agora, tenho de cozinhar… as coisas a que uma pessoa se sujeita.

Hoje consegui levantar-me cedo e sair de casa para umas compras saudáveis na loja Fruit & Veg City ao pé de casa. Posso ir fazer as minhas compras a pé e aproveitei para parar no Vida e Caffé (moro ao pé de um café tuga – coincidências?) para um expresso duplo e uma água com gelo e limão. Está um belo dia de Primavera-Verão e sou capaz de ir passear para os jardins e aproveitar para pôr a leitura e a escrita em dia. Trouxe trabalho para casa, é verdade, mas quem consegue resistir a isto? E 1 dia de descanso em 7 é mais do que merecido, certo?

A todas as pessoas que têm perguntado à minha mãe se estou a gostar da nova casa, muito obrigada pela atenção! Só não entendo porque não pedem a minha morada: as cartas e os presentes demoram a chegar, mas chegam! (Para alguém que acabo de constatar que é tímida, estou muito saidinha da casca.)

 

 

domingo, 6 de outubro de 2013

Ek is klein ma getrein!


Agora que estou devidamente instalada — ou, pelo menos, com todos os meus pertences na nova barraca — já estão reunidas as condições para fazer um pequeno resumo destes últimos dias.

Uma vez que a empresa dá 1 dia para quem muda de casa, achei que tinha mesmo de usufruir dele e marquei para a sexta-feira, para ter um fim-de-semana comprido. Mesmo não tendo muita coisa para transportar comigo, foi o melhor que fiz: é domingo e eu ainda me sinto cansada.

Apesar das inúmeras ofertas de ajuda, armei-me em teimosa e decidi fazer tudo sozinha. Havia gente com jipes e carrinhas prontas a ajudar, mas eu achei que 2 bracinhos e um Opel Corsa haviam de dar. E tudo se fez, mas contabilizei 4 viagens entre Pinelands e a cidade!

Não havendo estacionamento mesmo à porta do complexo, deixei o carro o mais perto possível e comecei a levar as malas para a recepção. Os seguranças/porteiros devem ter tido pena de mim (e os meus olhinhos de Bambi nunca falham!) e ofereceram-se para carregar tudo até ao apartamento, ajuda que não recusei. Menos mal!

A primeira impressão foi que o inglês dos seguranças/porteiros é muito superior ao meu, porque foi uma trabalheira para conseguir entendê-los. Mas depois lá percebi que eles comem palavras, mais precisamente os verbos (tipo, as palavras que ditam a acção numa frase): You moving in? You new? You alone? Flat empty or someone there? Anda uma pessoa a estudar inglês desde os 10 anos, a ler Shakespeare, Poe e Julian Barnes na faculdade, e a fazer testes e exames carregadinhos de gramática para isto.

Do elevador até ao meu apartamento, são uns bons minutos de caminhada, acho que dou a volta ao edifício — é o preço a pagar pela vista! E os corredores são em tudo semelhantes ao que vemos nos filmes norte-americanos: portas e portas numeradas, de onde saem inúmeros ruídos, também muito ao género de um hotel. Fazer estes corredores depois de uma ida à discoteca também deve ser bom, com dores nos pés e tal, e se o nível de sangue no álcool estiver no ponto… ui. E se antes eu achava que fazia algum exercício por ir a pé para o trabalho, acho que agora vou caminhar muito mais.

Assim que abri a porta do apartamento, pensei «Bolas, as janelas ficaram abertas desde terça-feira!» Pois, a vista é muito linda e tal mas o ruído do vento de Cape Town não perdoa e parece que me entra pela casa dentro. Os alumínios são também uma bela porcaria, mas isso é coisa que tenho notado desde o dia em que cheguei à África do Sul. Não é que perceba muito do assunto, mas sendo esse um dos negócios da minha família, aprendi a avaliar o material. E se o meu rico paizinho aqui estivesse, era a primeira coisa que fazia: umas belas janelas com vidro duplo, para proteger do som e vento. Mas enfim, pai, fica aqui o apelo: quando vierem de visita, traz umas fitas de material isolante para aplicar nos caixilhos, sim? Até lá, vou ver o que consigo desenrascar, até pode ser que me habitue ao uivar do vento.

Com a primeira leva de malas já em casa, lá me dirigi ao edifício do estacionamento. Oh, que alegria! Estacionamento no 5.º piso, numa verdadeira subida em caracol a fazer lembrar o estacionamento do El Corte Inglès. Bom, é capaz de não ser tão mau, mas ninguém me apanha a fazer aquilo às tantas da manhã, depois de uma noitada na discoteca!!! Especialmente porque é proibido buzinar, tem de ser tudo com sinais de luzes…. Yeah, right! Deve ser por isso que há uma fila de táxis em frente ao complexo e já me estou a ver a deixar o popó em casa em noites de saída.

Parece que me calhou o fim-de-semana mais ventoso dos últimos tempos. Continuo a achar que a Metalagreste faria muito e bom negócio por aqui.

Gosto muito que haja uma loja de conveniência à entrada do complexo: para além de comida e bebida, tem ATM e dá para carregar o telemóvel e comprar electricidade (assunto para outro post, um dia, sobre electricidade pré-paga).

Já avistei alguns vizinhos no elevador: tudo gente nova, a regressar do trabalho com jantar dentro de um saquinho. Mas com 5 pisos, e cerca de 30 apartamentos em cada um, vou demorar uma eternidade até ver a maioria.

O meu apartamento fica num cantinho, só com um outro apartamento ao lado, o que me deixou mais ou menos descansada relativamente a possíveis vizinhos barulhentos. Pois… acho que a criatura mais barulhenta deste piso está mesmo ao meu lado, só não me incomoda muito porque da porta até à sala/cozinha tenho um belo corredor. Gosto da música que de lá sai, mas preciso de lhe ver o focinho para decidir se vai ser uma relação de amor ou ódio.

E por falar em ruído, já disse que o vento de Cape Town arruma o do Sobral a um canto? E que a Metalagreste faria uma fortuna por aqui em marquises e janelas duplas?

O apartamento está mobilado e tem a maior parte do que é essencial, mas os próximos tempos serão de personalização do espaço (na medida dos possíveis, que o estaminé também não é grande e a proprietária não me deixa fazer grandes mudanças). Mesmo assim, e ao fim de 3 dias, já me sinto em casa. Estar sentada no sofá ou na mesa, de frente para a montanha, é verdadeiramente mágico.

Gosto de ter segurança no prédio. No sábado tive a minha primeira visita e a pessoa teve de deixar nome e contactos à entrada, quem ia visitar e em que apartamento, e ficam registadas as horas de entrada e saída. Gosto muito.

Deixaram-me um livrinho com todos os restaurantes da zona que fazem entrega ao domicílio. A encomenda online e entrega da pizza correu muito bem e os preços agradaram-me (Telepizza e Pizza Hut, vocês passaram à História!). Acho que vou ser muito feliz com tanto restaurante tailandês e indiano aqui à volta.

Os três malões de roupa continuam por arrumar. Mãaaaeeeeee! Onde estás tu nestas alturas?

Mesmo com tanta roupa e tanto sapato, e depois de ter rogado 1001 pragas enquanto fazia as malas, não dou 2 dias para me andar a lamentar que não tenho nada para vestir.

E o vento, meu Deus, e o vento? Paaaaaaaiiiiiiiiii! Não queres abrir uma sucursal da Metalagreste por aqui?

Estou cansada e acho que, por esta altura, já estão fartos de tanta conversa de treta, não? Isto é, para quem lê até ao fim! Por isso, e porque fotografias é que é bom, aqui ficam umas (poucas) imagens:
 
 
Ainda em Pinelands.

 
Primeiro round.

 
Isto foi na sexta-feira. É domingo à noite e as malas continuam no mesmo sítio, shame on me!

 
Não gosto de colocar online as fotografias das «minhas» crianças mas é uma excepção (e se as mães quiserem posso retirar esta imagem): depois de anos a decorar os frigoríficos dos outros, está na altura de me ajudarem a decorar o meu, que tal?

 
Compra mais importante do fim-de-semana. Achei que tinha o meu nome escrito.
 
 
 
Ah, e o título deste post? A minha primeira frase em Afrikaans!
 

domingo, 29 de setembro de 2013

Despedidas e novos começos


A sexta-feira passada foi muito divertida, com toda uma série de experiências novas: mais uma vez, apenas com sul-africanos e num ambiente de danças de salão. Apesar de ter dito desde o primeiro minuto que preferia estar em cima de uma bicicleta, dentro de uma piscina ou falar de futebol, tive de ceder um pouquinho e permiti que me ensinassem uns passos de quizomba, salsa e merengue. Não me dei mal mas não é «a minha praia»; no entanto, disse que podia oferecer os meus serviços para traduzir as letras (tudo em português e espanhol).

Diverti-me tanto que perdi o telemóvel, como expliquei no Facebook. Nem sequer posso culpar o álcool porque não me enfrasquei, fiquei-me pela cidra. Quem estava comigo ficou mais aflito, tal o peso da responsabilidade de tomar conta de uma menina estrangeira, mas que fazer? Depois de todas as buscas possíveis e imaginárias pela lendária Long Street, lá nos rendemos às evidências, e disse mesmo «Nada de stress. Há milhares de crianças a morrer de fome, há miséria por todo o lado. É apenas um telemóvel.» Uma pessoa chega a África e aprende logo a relativizar muita coisa.

Depois de todo o dramalhão da madrugada, foi mais uma aventura para recuperar o número. Comprei outro telemóvel, que remédio!, e segunda-feira lá regressarei ao mundo dos vivos. É de facto impressionante como nos tornamos dependentes do telemóvel, especialmente quando temos email, Facebook, WhatsApp e todos os contactos mais do que preciosos recolhidos nos últimos 10 meses. A nossa vida não depende do telemóvel, nós é que nos comportamos dessa forma.

Foi, por isso, um fim-de-semana mais do que calmo aqui para estes lados. Dormi (MUITO) e comecei a fazer as malas para a mudança. Almocei com a Fatima e a família (são 19:00 e ainda estou cheia – depois queixo-me que a roupa já não me serve) e tenho aproveitado este final de tarde para responder a alguns emails e mensagens de amigos e familiares. Diz que estava a decorrer uma espécie de arraial tuga na Waterfront, com missa, bênção de barcos, música e eleição de Miss e Mister qualquer coisa, mas a próxima semana vai exigir muito de mim e eu já não vou p’ra nova.

Amanhã será o último dia de trabalho da Fatima. Foi a pessoa que me foi buscar ao aeroporto no dia em que cheguei e foi muito mais do que uma assistente: foi família e amiga. Foi com ela que passei o Natal e a Páscoa; foi ela que me aturou em todos os momentos de stress laboral; foi ela que me viu nos momentos menos bons, quando a saudade apertou. Mas partilhámos muuuuuiiiiitas gargalhadas, lágrimas de alegria, anedotas, cervejas, vinho, muuuuiiiiiiiiiiiiiiiiiiito vinho, muita comida. E é por isso que será um dia difícil, que vai culminar num jantar algures num restaurante português. Com muitas lágrimas.

Depois deste adeus, uma priority meeting (a mais dura desde que aqui cheguei) logo pelas 8:00 da matina. Estas reuniões sugam-me quilos de energia (antes me roubassem quilos de calorias e massa gorda, seria divinal), já sei que vou sair de rastos. Às 16:00, vou buscar as chaves do novo apartamento. E no próximo fim-de-semana, a mudança definitiva para a cidade. Pelo meio da semana, jantar com os Davies e a despedida da Amy.

Ah, que bela semana a que me espera!



quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Blisters for Bread 2013



As coisas aqui pelo estaminé têm andando meio paradas, bem sei, mas nem sempre há disposição/tempo/assunto. Quando vim para a África do Sul, decidi que tinha de viver e aproveitar a experiência da melhor forma possível, mesmo que isso implicasse estar ausente da «vida virtual». O facto de o emprego exigir muitas horas em frente ao computador também não ajuda: já pus o trabalho à frente da vida social (não vale a pena, está no meu ADN); além disso, há dias em que chego a casa sem qualquer vontade de pegar no portátil.

Mas há que fazer um esforço… Não sou blogger profissional mas este cantinho tem sido uma experiência para lá de boa.

Há umas semaninhas, aderi ao desafio lançado pela empresa de participar na caminhada Blisters for Bread 2013 (qualquer coisa como «Bolhas por pão»). À semelhança de provas idênticas organizadas em Portugal e um pouco por todo o mundo, esta tratou-se de uma caminhada solidária sob o lema You Can’t Teach a Hungry Child. Uma oportunidade para fazer uma bonita caminhada pela cidade, ajudando uma bela causa: o valor das inscrições foi direitinho para um programa que trabalha no sentido de garantir que as crianças mais necessitadas do Western Cape começam cada dia de aulas com algum alimento no estômago. A empresa tratou de tudo, desde as inscrições às t-shirts, bonés, bandeiras, alimento. Na sexta-feira antes recebemos o pacote com toda a informação e decidimos que o sábado seria sossegadinho (entenda-se, sem saídas e sem álcool) para estarmos fresquinhos no domingo. Eu inscrevi-me na prova dos 15 km, com outros 10 colegas. Os restantes elementos da equipa Pearson (total de 115!) fizeram 10 ou 5km.

Estando em África, estas coisas acontecem cedinho… pelas 7h e pouco de domingo já eu estava junto ao estádio de Cape Town, em Green Point (que devem ter visto na TV, por altura do Mundial de 2010, e recinto que costuma receber os grandes artistas internacionais). Mesmo para os 15 km, eram centenas de pessoas… fiquei mesmo impressionada!

Em pleno Inverno, fomos presenteados com um magnífico dia de Verão (as temperaturas rondaram os 20 e muitos graus), o que ajudou bastante. Devo dizer que, para um evento desta dimensão, a organização foi quase perfeita… nada a apontar. Muitos voluntários a indicar o caminho, pessoal a puxar pelos malucos que se atreveram a fazer a prova em ritmo de «corrida», postos de abastecimento com água, coca-cola, gomas. O percurso já eu conhecia — Green Point / Three Anchor Bay / Sea Point / Bantry Bay / Clifton — pois costumo fazer parte do mesmo nos fins-de-semana, sempre que o tempo o permite.

A Lynley, a Taren e eu conseguimos fazer os 15 km em cerca de 2 horas (era tanta gente que por vezes se tornava difícil caminhar num ritmo mais acelerado) e terminámos ao mesmo tempo que o resto do «nosso» grupinho, que optou pelos 10 km. No final, lá fomos encher o bandulho com uma bela shoarma, oferta da empresa.

Aqui estão algumas fotos da coisa…
 
 
A bela da t-shirt corporativa
 
 

 
Pormenor da vista - que partilhei no Facebook
 
 

 
Shoarma às 11h e pouco da manhã - só na África do Sul
 
 

 
O «cantinho» da família Pearson - causámos impacto!
 
 

 
Juntinho ao estádio - com imensos espaços para comer, beber, e até música ao vivo
 
 

 
A Lauren e a Ashleigh
 
 

 
Descaradamente roubado da rede social da empresa
 
 

 
As crianças Pearson
 

 

E depois da shoarma, a Lauren lembrou-se que aquilo tinha marchado bem com uma cerveja. E eu lá sugeri que podíamos ir até à Waterfront e abancar numa esplanada… ora bem! Ao som dos avisos da Ashleigh (Vejam lá o que bebem! Vanessa, toma conta da Lauren! Portem-se bem!), lá segui com a Lauren e a Tegan para a Waterfront. E correu tão bem que ficámos mais de 6 horas sentadas na esplanada, indiferentes ao facto de estarmos com trajes desportivos, num local cheio de gente gira.
 
 
Pure BLISS.
 
 
Houve medalhas para todos os participantes - mais uma para a colecção!
 

terça-feira, 10 de setembro de 2013

E 9 meses depois, a cidade.


Sempre foi meu objectivo morar no centro da cidade mas cheguei na pior altura do ano no que toca a alugar casas na Cidade do Cabo. Dezembro e Janeiro são meses de férias, de Verão, é a época alta. E muitos procuram alugar a pessoas que visitam a cidade com esse propósito. Por outro lado, o sul-africano é muito dado a alugar a sua casa por 2 ou 3 meses, período em que estará no estrangeiro, em trabalho, por exemplo; preferem alugar a alguém que pode tomar conta do espaço do que deixar a casa vazia, à mercê de larápios. Isso e um total desconhecimento da cidade e arredores fizeram com que me mudasse para o anexo dos Davis, que também tinham acabado de chegar de Londres.

Eles não me conheciam de lado algum mas houve empatia imediata desde o primeiro minuto. Também deve ter ajudado o facto de ter dito que trabalhava em manuais escolares para Angola e Moçambique: a Amanda, para além de mãe, é terapeuta da fala e tem uma empresa própria, em Inglaterra, que desenvolve a sua actividade em escolas, principalmente. O preço era mais do que apelativo e o facto de ser, literalmente, ao lado do escritório também ajudou.

Foi o melhor que me aconteceu, a vários níveis: vou a pé para o trabalho e tenho a companhia de uma família jovem que nunca me tratou como inquilina mas como amiga e parte da família. Como referi aqui na altura, ofereceram-me um jantar de aniversário e não raras vezes fui convidada para vários jantares; sempre que estão fora, sou eu que tomo conta das cadelas (tendo acesso à casa toda); faço babysitting for free. E as filhotas… Já aqui contei, a Amy é a minha fã número 1.
Com tudo isto, fui adiando a mudança para o centro da cidade. Mas os fins-de-semana em Pinelands começaram a matar-me. Não há cafés com gente nova, solteira. A população é constituída por famílias ou velhotes que vão ao supermercado com os andarilhos. A partir das 18h e pouco já não há gente na rua.

Mesmo estando a 2 passos da cidade, isto começou a consumir-me. Por isso, quando apareceram 2 apartamentos no centro, com os requisitos mínimos, tratei de ir ver. E se perdi o primeiro por uma questão de horas, o segundo já não me escapou… e depois de 2 dias a preencher papelada, é meu por 1 ano. Complexo com segurança 24h, estacionamento, piscina, ginásio, mobilado, cozinha equipada e vistas para a montanha. Não tem varanda, mas enfim… a pessoa habitua-se. O quarto (suite) é pequeno mas a cozinha e lounge têm espaço para reunir amigos, ter gente a dormir no sofá, no chão… Está tudo preparado para receber os meus pais (e outros que por cá queiram aparecer)!

E como foi contar aos Davis? Pois, foi um drama, à semelhança de muita coisa que tem acontecido por aqui. Quando preenchi os papéis para me «candidatar» à casa, uma das milhentas informações pedidas era o contacto do actual senhorio (para futuras referências). Eu lá dei o número de telemóvel, email, etc., mas avisei a imobiliária: Eles não sabem que eu ando à procura de casa, é a primeira vez que estou a «candidatar-me», por favor não lhes telefonem. E não pensei mais no assunto.

Quando, nesse dia, cheguei a casa, quase de noite, já estoirada, veio a família em peso esperar-me ao portão… Vanessa, are you leaving us??????????

Em bom português, se eu tivesse tomates, tinham-me caído ao chão. E fiquei sem reacção, mas com lágrimas nos olhos. Lá me contaram que, do nada, receberam um telefonema a pedir informações sobre a minha pessoa, se era de confiança, se pagava a renda, bla bla. Isto do nada. Eu mal abria a boca, a Amy só gritava e os pais a quererem saber se eu me sentia mal com eles, se faziam muito barulho, se eu estava aborrecida, enfim, o que é que eles tinham feito para eu decidir ir embora sem dizer nada.

E se eu em ambiente profissional sou uma coisa, nestas coisas sou uma atada e choro porque não consigo dizer que não a ninguém. E se em português é mau, explicar em inglês, com receio que alguma coisa seja mal interpretada, é ainda pior.

Lá resumi a coisa da melhor forma possível, reforçando 1001 vezes que a decisão de mudar para a cidade não estava relacionada com eles, de forma alguma, e que esta tinha sido a primeira vez que tinha ido ver um apartamento nestes meses todos. Também não era definitivo: se o apartamento estava no mercado há tanto tempo, era porque a dona era bastante esquisita e selectiva, o mais provável era eu ir acabar na eterna lista dos rejeitados. Mas a Amanda sorriu, de forma confiante, e só disse: It’s yours, believe us.
 
E, de facto, foi muito fácil. A menina sul-africana, que trabalha em Amesterdão, ficou encantada com as referências pessoais e profissionais, informações bancárias e mais que tal, e assinou o contrato em minutos.
No dia seguinte, quando obtive a aprovação, lá falei com os Davis, de forma mais calma… Eles foram impecáveis e perceberam os meus motivos. Nada que eu não esperasse mas não era desta forma que eu queria que eles soubessem…

Hoje, uma semana depois, contaram à Amy que a Vanessa se ia embora… mas isso é matéria para outro post!




segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Branca e radiante vai a noiva... or not.




Quando há 24h lancei a bomba de que tinha recebido duas propostas de casamento num espaço de 4 horas, não esperava tal reacção por parte da comunidade faceboquiana: ele foi likes, ele foi comentários, ele foi mensagens, SMS, ui…

Não sou o Presidente da República mas achei que tinha de me dirigir à nação, esclarecendo os motivos que levaram a tal declaração. E no final deste post, ainda vão soltar uma boa gargalhada (vá lá, esboçar um sorriso que eu não tenho assim tanta piada!)

O primeiro pedido surgiu minutos após conhecer um dos melhores amigos da minha colega Lauren. Não foi um pedido convencional, claro, mas a conversa, entre cervejas, jarros de sangria e shots de Caramel Vodka, levou a algo parecido com isto [versão resumida e muuiiiiito editada]:

— Então, Vanessa, onde moras?
— Em Pinelands.
— Em Pinelands? Porquê?
— Porque ainda não encontrei apartamento na cidade.
— Podes vir viver comigo.
— Não me parece.
— E em que zona da cidade gostavas de viver?
— Em Gardens.
— Lá está… Podes vir viver comigo. 

[Lauren e eu a rir, rir, rir… A conversa manteve-se sempre neste registo.]
 
— E há quanto tempo estás na Cidade do Cabo?
— Há 8 meses.
— Até quando?
— Se tudo correr bem, fico, pelo menos, por 5 anos.
— E tens namorado?
— Não.
— Porquê?
— Porque vim para a África do Sul.
— Boas notícias para mim, então!
— Ah, sim?
— Podes conhecer alguém e ficar cá para sempre!
— Quem sabe, não é?
— Podes ficar comigo!
[Gargalhadas.]
— E qual é o teu apelido?
— Rodrigues. Rodrigues, e não Rodriguez.
— Rodrigues, em breve Jacobs.
— Desculpa?
— Vamos casar. Vais passar a ser Vanessa Jacobs.

E a partir daqui, foi sempre neste registo até me ir embora… Estava sentada naquela esplanada desde o meio-dia e já passava das 18h. Isto depois de ter participado numa caminhada solidária de 15 km que começou às 7h e picos da matina.

Deixei-os aos 2 na esplanada e rumei a casa. Pôr roupa a lavar, duche, jantar, dar comida às cadelas, estender roupa e ligar o computador. Passado um pouco, a escuridão total. Nada de luz em meu redor. A bateria do computador ainda aguentava, mas decidi que não ia ficar à espera que chegasse a luz: estava cansada, o melhor era deitar e podia estoirar o resto da bateria do telemóvel na cama, entre Facebook, WhatsApp e jogos.

Mas, nisto, ouço a campainha. Fico imóvel, sem saber se era real ou efeitos de andar a ver as temporadas do American Horror Story de enfiada, madrugada fora. Ouço a Poppy a ladrar e decido espreitar. No meio da escuridão total, topo uns faróis junto ao portão. Lá vou eu, de cabelo apanhado, óculos, roupão, as calças do pijama entaladas nas meias e pantufas. Não me perguntem o que me levou a não ignorar os faróis numa noite escura de Inverno. Parecia a protagonista de um daqueles filmes de terror nada previsíveis, em que as meninas correm na direcção do assassino, etc etc (com a diferença que eu não sou boazuda como elas costumam ser. Pior, com um pijama em tons de salmão/rosa-velho e um roupão azul escuro com bolas brancas, estava mesmo muito distante). Mas com os Davis em Kwazulu-Natal (outra província da África do Sul), acabo por ser a responsável pela casa e decidi investigar.

Diligentes como só eles, eram os senhores da empresa de segurança aqui do bairro: para além de serem responsáveis pelos sistemas de alarme, também patrulham as ruas 24h/dia e são uma preciosa ajuda em casos de urgência (quando os Davis estão fora, é a mim que telefonam).

O segurança sai da carrinha da empresa e é aqui que começa o episódio 498 da saga Vanessa in Cape Town: Twilight Zone. [Pequena nota: o jovem era daqueles pretos, bem pretos, que falava um inglês manhoso como tudo. A conversa foi pouco fluente, com muita coisa repetida, mas vou poupar-vos nisso.]

— Boa noite, Miss, está tudo bem?
— Boa noite. Acho que sim… Quero dizer, pensava que tinha faltado a luz no bairro mas parece que foi apenas aqui.
— Pois, Miss, a central detectou um problema de energia aqui na residência. Está tudo bem consigo?
— Bom, se foi apenas um problema de electricidade, só espero que se resolva até amanhã para poder sair de casa [portões eléctricos, alarme, etc.]. Vou contactar os donos da casa.
— Talvez seja melhor. Mas pode sempre contar connosco. As cadelas estão lá dentro?
— Sim. E eu vou andando também, é tarde.
— Está sozinha?

[A luz do poste não é grande coisa, mas deve ter sido mais do que suficiente para ele ver o meu olhar por trás das lentes fundo de garrafão. Respondi um pouco a medo, que isto das séries e dos filmes dá-nos a volta a cabeça e começamos a ver serial killers em tudo o que mexe. E podia ser o Oscar Pistorius disfarçado, nunca se sabe.]
— Hoje, sim.
— Então e o marido?
— Desculpe?
— O marido? Não tem marido?
— Ah, não, tenho andado a evitar isso.
— Então sou eu que lhe vou pôr uma aliança no dedo?
— Desculpe? O que é que disse?
— Sou eu que lhe vou pôr uma aliança no dedo. Vamos casar.

[Sim, riam de mim. Isto é surreal.]
 
— Desculpe, mas acho que já fez o seu trabalho por hoje. Está tudo bem por aqui, muito obrigada por ter vindo verificar a casa.
— Mas já sabe que serei eu… Costuma ir à igreja?
— Se sou religiosa? Sim, muito.
— É que eu não vou à igreja, era importante saber se acredita…
— Se acredito em Deus?
— Pois…
— Olhe, é tarde e eu estou cansada. Mais uma vez, muito obrigada…
— Se houver algum problema, telefone-me.
— Claro, deixe-me apontar o número de emergência.
— Eu é que não posso dar-lhe o meu número. Mas se mo pedir, eu dou-lho.
— Não obrigada, basta o da empresa.
— Mesmo que telefone às 3h da manhã, peça para falar comigo. Eu venho logo.
— Eu espero mesmo que não seja necessário. Muito obrigada e boa noite.
— Boa noite, Miss. E não se esqueça, sou eu que lhe vou pôr uma aliança no dedo.

Isto é pura verdade. Aliás, o episódio torna-se ainda mais surreal e ridículo se considerarmos que o inglês da criatura era pior que o meu, que eu estava vestida que nem uma palhaça, que era noite escura, sei lá… É o íman que há em mim: stalkers, conversas de supermercado e pedidos de casamento.
Mas isto tudo para descansar a minha santa mãe, o meu rico paizinho e toda a família e amigos: são muito bem-vindos, mas não precisam de começar a pensar nas fatiotas para o casório! Mesmo que isso estivesse no meu horizonte, acham que ia anunciá-lo desta forma?!





terça-feira, 20 de agosto de 2013

Just one of those moments


Hoje, no escritório, uma colega perguntou-me «Are you OK, Vanessa?» e eu desatei a chorar.
Na sexta-feira passada, essa minha colega, com quem estou todos os dias, apresentou a sua demissão e vai embora no final de Setembro: fui das pessoas que mais força lhe deu, apoiei-a na decisão, mas na hora da verdade… fiquei muito triste. Foi a pessoa que mais me ajudou, que mais me aturou, que mais me ouviu refilar, com quem mais gargalhadas dei e com quem mais copos de vinho bebi (para não dizer garrafas).

No sábado, um jantar que aguardava com alguma ansiedade não teve lugar. Fiquei tão piursa que nem me apeteceu beber um copito de vinho para descontrair.
Na segunda-feira, o calendário e a Edite Costa relembraram-me que seria o aniversário da Maria Augusta. Hoje, é o aniversário do meu pai.

Se estivesse em Portugal, não iria estar com nenhum dos dois (o meu pai anda a passear a esposa pelos caminhos de Portugal e Espanha). Mas acordei angustiada e quando recebo um email do meu pai, a agradecer a minha mensagem, foi mais forte do que eu. Bastou uma pergunta da minha colega e fui-me abaixo.
Não houve um minuto sequer em que me tivesse arrependido de ter embarcado nesta aventura, mas não é fácil, especialmente nestes momentos. Por muitas estratégias que tenhamos, por muito que nos protejamos, no fim, o coração denuncia-nos sempre. E que posso eu fazer? Ter vergonha, fingir que não aconteceu, atribuir outras razões a esta «fraqueza»?

Não, nunca. É bom ter saudades. É sinal que a alma está viva, que o coração bate e continua a ter razões para bater. É prova de que há amor. E enquanto houver tudo isto, não há razão para esconder estas lágrimas, de ninguém.
 
 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Conversas no supermercado aqui do burgo




Não sei se é da minha cara de estrangeira, se tenho um ar afável ou se é, afinal, uma coisa comum, mas as minhas idas ao supermercado traduzem-se sempre em longas conversas com os funcionários da caixa. Eu nem alimento a coisa — até porque o inglês deles é qualquer coisa do outro mundo — mas eles falam, falam, falam…

Diálogo 1

Lembro-me de, em Janeiro, num dia de muito calor, ir ao supermercado com um vestido de praia suficientemente arejado para se ver a parte de cima do biquíni. A funcionária da caixa mira-me como se eu fosse um extraterrestre:

— É nadadora?
— Não, mas sei nadar, sim. Porquê?
— Estou a ver que está vestida para ir nadar.
— Está muito calor, vesti-me como se fosse um dia de praia.
— Calor? Está assim tanto calor?

Nisto, eu observo-a com mais atenção. Esta funcionária tinha a farda do supermercado, mas como calor é coisa que não assiste a maioria desta gente, a farda consistia em, apenas, saia com meias opacas, camisa e camisola de lã.
— Pois, sabe, é que eu venho da Europa.
— Ah, pois…


Diálogo 2

Novamente, na caixa, a «despejar» artigos do cesto, em que se incluía um conjunto de cabides.
 
— Ah, é a senhora dos cabides!
— Desculpe?
— Sim, é a senhora que costuma vir comprar cabides.
— Hummmm, não me parece. Nunca tinha comprado cabides aqui no supermercado.
— Olhe que eu acho que sim. Fui eu que a atendi.
— Olhe que eu tenho a certeza de que está a confundir-me com outra pessoa.
— Não me parece. Gosta de comprar cabides?
[F&%$#%$] Não se trata de gostar, preciso deles.
— São cabides muito bonitos.


Eram cabides brancos, do mais básico que há. Que raio!

 

Diálogo 3

A funcionária, a passar os artigos pela registadora…
— Já pensei em experimentar este desodorizante.
— Pois… é bom.
— Já olhei para ele várias vezes, e há muitas senhoras que o compram, mas nunca o experimentei.
— Pois…
— Eu uso sempre da marca X, com cheiro a Y… [neste momento, já os meus ouvidos tinham bloqueado, embora continuasse a sorrir.]
— Ah, e estas empadas têm bom aspecto!
— Espero que saibam ainda melhor!
— E de galinha e cogumelos, ainda melhor! Havia mais?
— Sim, havia mais.
— De galinha e cogumelos?
— Hummm… Acho que também havia de carne de vaca. E caril.
— Ah, mas estas são as melhores. Eu das outras não gosto.

Já as empadas estavam no saco e ela continuava a falar das ditas cujas…

— Ah, e estas barritas parecem deliciosas!
— Ahã.
— Estou mesmo desejosa de ir para casa.
— Pois, imagino.
— Quem me dera que os clientes se fossem todos embora. Já.
— Pois, se me deixar pagar, eu prometo que vou embora. Já.
— Isto hoje até está calmo [De 20 caixas, nem metade estava, abertas e não havia fila em nenhuma.] É que hoje é noite de cinema. Amanhã vai ser um dia muito movimentado.
— Mas olhe que é sinal de que tem emprego. O desemprego na África do Sul é muito elevado.
— Se calhar tem razão.
— Tenha uma boa noite…

 

Diálogo 4

Comprar álcool exige sempre alguma logística. Ou vou ao centro comercial ao sábado ou saio do escritório às 17h e faço 10 km até à liquor store mais próxima, antes que a loja feche às 18h. Apesar de ser perfeitamente legal, nunca deixo de sentir que estou a cometer um crime quando de lá saio «abastecida» … Até porque venho sempre com 1 pack de 6 cervejas e/ou cidra, e 2 ou 3 garrafas de vinho Na última deslocação, o funcionário, já na caixa…

— Tanta gente que dizia que estes sacos do Pick n Pay não serviam para nada! [Sacos tipo Pingo Doce, reutilizáveis.]
— Claro que dão jeito!
[Analisando o conteúdo do saco.] Mas olhe, Miss, tenha calma. Não beba tudo de uma vez, take it slow.
— Ah ah, não se preocupe, só bebo uma de cada vez.


No escritório, dizem que tenho um ar angelical e sou quase demasiado bem-educada, politicamente correcta, etc. Mas há momentos em que isto me parece quase surreal.

domingo, 11 de agosto de 2013

E como vamos de amores, miss V.?


Tenho para mim que, dos meus poucos leitores, há 1 ou 2 que aguardam ansiosamente actualizações do meu estado civil. Bom, claro que a minha vida amorosa podia correr muito melhor mas nada a fazer, é assunto que dava para uma tese de doutoramento. Por outro lado, este amor que me esperava no regresso à África do Sul é qualquer coisa de único…
 
 

À esquerda, a Amy mascarada de Vanessa; à direita, a Vanessa e o seu curly hair. A Amy tem apenas 3 anos, há que reconhecer o esforço para escrever o meu nome (3 letras não é mau!).
 
 




Desenho abstracto mas, uma vez mais, o I love you no topo da página.

 
 
Desenho, abraços, muitos abraços, e a preocupação relativamente ao carro (Vanessa, you left your car here! Do you have a car in Portugal?). Não é um namorado, mas enche o coração!