Peço imensas desculpas aos mais cuscos, ups!, aos mais
interessados pela ausência de histórias e relatos de episódios cómicos ou
melodramáticos, mas tenho andado relativamente ocupada com afazeres
profissionais e, como é possível constatar através do Facebook, com afazeres
«sociais» também.
A vida no novo apartamento está a correr muito bem. Adquiri
aquilo que era fundamental e que a casa não tinha (chaleira eléctrica,
torradeira, copos e talheres) e tratarei do resto da decoração aos poucos. A
verdade é que apesar de gostar de ver casas decoradas, não é o meu forte (sou
muito pouco gaja e até aqui já comentaram que eu sou workaholic). A minha casa de Lisboa foi sendo decorada muito
lentamente, muitas vezes como resultado da pressão de terceiros, e recordo-me
de ter pedido ao meu pai para pendurar um candeeiro de tecto no quarto poucos
dias antes de vir para a África do Sul. Sim, foram 7 anos a olhar para uma mera
lâmpada no tecto do quarto. De qualquer forma, o meu objectivo é trazer
fotografias de Portugal para personalizar verdadeiramente este meu novo espaço.
Fotografias são o meu item decorativo preferido: além de podermos encontrar
molduras a preços extremamente acessíveis conferem aos espaços muito calor
humano. E estando longe da família e dos amigos, nada como me fazer rodear
deles de uma outra forma.
E como é isto de estar na cidade? Bom, sou pessoa para sair
do escritório à sexta-feira e ir para um bar com colegas. Depois as colegas
convidam amigos, que também conhecem outras pessoas, e acaba tudo a beber
cervejas e a comer nachos até à noite. Para vir para casa, ou apanho uma boleia
ou um táxi. E no segundo fim-de-semana (que foi o fim-de-semana passado), já
começaram os «filmes» de receber chamadas ou mensagens via WhatsApp durante a
noite. Este é apenas um exemplo:
— Vanessa,
estavas a dormir?
—
Hmmmmmmmmm. Que horas são?
— São 3 da
manhã.
— Claro que
não estava a dormir, X. Estava acordada à espera da tua chamada.
— Estou aqui
ao pé do teu prédio.
— Vai para
casa e vai dormir. Eu consigo ouvir os teus amigos. Alguém que te leve para
casa. Deixa-me dormir.
Não, não estamos a falar de uma conversa mantida há 10 anos,
algures em Lisboa ou no Sobral, com amigos da terra ou colegas de curso. Isto
passou-se há uma semana, na Cidade do Cabo, em inglês, com pessoas com mais de
33 anos. E a Lauren estava comigo (ficou a dormir na minha casa), por isso, há
testemunhas. Como disse a minha cunhada, parece que estou novamente na
universidade!
Continuo sem conseguir ver o focinho do vizinho do lado. Ouve
muita música e tem horários diferentes. Os vizinhos jeitosos, pelo que me
apercebi, moram no 1.º e 2.º andares. Um dia, cansada de esperar pelo elevador,
decidi usar as escadas e foi todo um mundo novo que se me surgiu… um mundo de
moços bem-constituídos, loiros e de olhos claros que usa as escadas e não o
elevador. Não é preciso dizer, que desde então, só voltei a usar o elevador uma
vez, para ir despejar o lixo nos contentores do prédio. Há quem vá ver montras
para os centros comerciais, eu lavo as vistas nas escadas do prédio.
Também não tenho passado muito tempo em casa. Já me converti
ao estilo de vida africano e sou menina para estar acordada a partir das 5h e
pouco da manhã. Às 6h, já há trânsito e, vivendo eu na rua do Parlamento e em
frente a alguns edifícios governamentais, vejo muita gente a chegar a essa hora
aos respectivos empregos. Assim, às 7h já eu vou a caminho de Pinelands. Passo quase
12h por dia no escritório e, quando chego a casa, sento-me no sofá, a
contemplar a montanha, a ouvir os barulhos da cidade, sem qualquer necessidade
de ver TV (abri uma excepção para os episódios das novas temporadas de Revenge, Scandal, New Girl, que
ainda não chegaram à África do Sul mas que a minha dealer consegue obter poucas horas após estrearem nos EUA).
Os fins-de-semana têm sido muuuiiiito ocupados: The Color Run, almoços, festas de
aniversário que começam de manhã e terminam à noite, abertura de restaurantes, you name it. Tal como disse a minha
colega Ashleigh, não é preciso muito para me convencerem… só costumo perguntar
local e se haverá comida e bebida. Se conheço todas as pessoas? Não! E saio de
lá sem saber metade dos nomes (mas todos sabem o meu porque sou nova) mas não é
coisa que me preocupe. Mais tarde ou mais cedo, vou encontrar estas mesmas
pessoas noutras festas! E se Lisboa é um bairro, a Cidade do Cabo é um beco. Um
mini-beco.
Nem todos sabem, nem se apercebem, mas eu sou extremamente
tímida e esta nova vida tem-me obrigado a um esforço extra de sair mais, falar
mais, conviver com pessoas que nunca vi. Para não mencionar o facto de que tudo
envolve comida e bebida e a minha roupa começa a acusar os excessos (como não
me ponho em cima de uma balança há anos, é mesmo pela roupa e pelo espelho que
controlo a coisa).
Também por isso, vou tentar reservar os domingos para
descanso e cozinhar as refeições para o resto da semana — antes ia à casa dos
pais buscar sopinha da mãe e os restos do fim-de-semana… agora, tenho de
cozinhar… as coisas a que uma pessoa se sujeita.
Hoje consegui levantar-me cedo e sair de casa para umas
compras saudáveis na loja Fruit & Veg
City ao pé de casa. Posso ir fazer as minhas compras a pé e aproveitei para
parar no Vida e Caffé (moro ao pé de
um café tuga – coincidências?) para um expresso duplo e uma água com gelo e
limão. Está um belo dia de Primavera-Verão e sou capaz de ir passear para os
jardins e aproveitar para pôr a leitura e a escrita em dia. Trouxe trabalho
para casa, é verdade, mas quem consegue resistir a isto? E 1 dia de descanso em
7 é mais do que merecido, certo?
A todas as pessoas que têm perguntado à minha mãe se estou a
gostar da nova casa, muito obrigada pela atenção! Só não entendo porque não
pedem a minha morada: as cartas e os presentes demoram a chegar, mas chegam!
(Para alguém que acabo de constatar que é tímida, estou muito saidinha da
casca.)




