domingo, 27 de outubro de 2013

Update - a pedido de algumas pessoas


Peço imensas desculpas aos mais cuscos, ups!, aos mais interessados pela ausência de histórias e relatos de episódios cómicos ou melodramáticos, mas tenho andado relativamente ocupada com afazeres profissionais e, como é possível constatar através do Facebook, com afazeres «sociais» também.

A vida no novo apartamento está a correr muito bem. Adquiri aquilo que era fundamental e que a casa não tinha (chaleira eléctrica, torradeira, copos e talheres) e tratarei do resto da decoração aos poucos. A verdade é que apesar de gostar de ver casas decoradas, não é o meu forte (sou muito pouco gaja e até aqui já comentaram que eu sou workaholic). A minha casa de Lisboa foi sendo decorada muito lentamente, muitas vezes como resultado da pressão de terceiros, e recordo-me de ter pedido ao meu pai para pendurar um candeeiro de tecto no quarto poucos dias antes de vir para a África do Sul. Sim, foram 7 anos a olhar para uma mera lâmpada no tecto do quarto. De qualquer forma, o meu objectivo é trazer fotografias de Portugal para personalizar verdadeiramente este meu novo espaço. Fotografias são o meu item decorativo preferido: além de podermos encontrar molduras a preços extremamente acessíveis conferem aos espaços muito calor humano. E estando longe da família e dos amigos, nada como me fazer rodear deles de uma outra forma.

E como é isto de estar na cidade? Bom, sou pessoa para sair do escritório à sexta-feira e ir para um bar com colegas. Depois as colegas convidam amigos, que também conhecem outras pessoas, e acaba tudo a beber cervejas e a comer nachos até à noite. Para vir para casa, ou apanho uma boleia ou um táxi. E no segundo fim-de-semana (que foi o fim-de-semana passado), já começaram os «filmes» de receber chamadas ou mensagens via WhatsApp durante a noite. Este é apenas um exemplo:

— Vanessa, estavas a dormir?
— Hmmmmmmmmm. Que horas são?
— São 3 da manhã.
— Claro que não estava a dormir, X. Estava acordada à espera da tua chamada.
— Estou aqui ao pé do teu prédio.
— Vai para casa e vai dormir. Eu consigo ouvir os teus amigos. Alguém que te leve para casa. Deixa-me dormir.


Não, não estamos a falar de uma conversa mantida há 10 anos, algures em Lisboa ou no Sobral, com amigos da terra ou colegas de curso. Isto passou-se há uma semana, na Cidade do Cabo, em inglês, com pessoas com mais de 33 anos. E a Lauren estava comigo (ficou a dormir na minha casa), por isso, há testemunhas. Como disse a minha cunhada, parece que estou novamente na universidade!

Continuo sem conseguir ver o focinho do vizinho do lado. Ouve muita música e tem horários diferentes. Os vizinhos jeitosos, pelo que me apercebi, moram no 1.º e 2.º andares. Um dia, cansada de esperar pelo elevador, decidi usar as escadas e foi todo um mundo novo que se me surgiu… um mundo de moços bem-constituídos, loiros e de olhos claros que usa as escadas e não o elevador. Não é preciso dizer, que desde então, só voltei a usar o elevador uma vez, para ir despejar o lixo nos contentores do prédio. Há quem vá ver montras para os centros comerciais, eu lavo as vistas nas escadas do prédio.

Também não tenho passado muito tempo em casa. Já me converti ao estilo de vida africano e sou menina para estar acordada a partir das 5h e pouco da manhã. Às 6h, já há trânsito e, vivendo eu na rua do Parlamento e em frente a alguns edifícios governamentais, vejo muita gente a chegar a essa hora aos respectivos empregos. Assim, às 7h já eu vou a caminho de Pinelands. Passo quase 12h por dia no escritório e, quando chego a casa, sento-me no sofá, a contemplar a montanha, a ouvir os barulhos da cidade, sem qualquer necessidade de ver TV (abri uma excepção para os episódios das novas temporadas de Revenge, Scandal, New Girl, que ainda não chegaram à África do Sul mas que a minha dealer consegue obter poucas horas após estrearem nos EUA).

Os fins-de-semana têm sido muuuiiiito ocupados: The Color Run, almoços, festas de aniversário que começam de manhã e terminam à noite, abertura de restaurantes, you name it. Tal como disse a minha colega Ashleigh, não é preciso muito para me convencerem… só costumo perguntar local e se haverá comida e bebida. Se conheço todas as pessoas? Não! E saio de lá sem saber metade dos nomes (mas todos sabem o meu porque sou nova) mas não é coisa que me preocupe. Mais tarde ou mais cedo, vou encontrar estas mesmas pessoas noutras festas! E se Lisboa é um bairro, a Cidade do Cabo é um beco. Um mini-beco.

Nem todos sabem, nem se apercebem, mas eu sou extremamente tímida e esta nova vida tem-me obrigado a um esforço extra de sair mais, falar mais, conviver com pessoas que nunca vi. Para não mencionar o facto de que tudo envolve comida e bebida e a minha roupa começa a acusar os excessos (como não me ponho em cima de uma balança há anos, é mesmo pela roupa e pelo espelho que controlo a coisa).

Também por isso, vou tentar reservar os domingos para descanso e cozinhar as refeições para o resto da semana — antes ia à casa dos pais buscar sopinha da mãe e os restos do fim-de-semana… agora, tenho de cozinhar… as coisas a que uma pessoa se sujeita.

Hoje consegui levantar-me cedo e sair de casa para umas compras saudáveis na loja Fruit & Veg City ao pé de casa. Posso ir fazer as minhas compras a pé e aproveitei para parar no Vida e Caffé (moro ao pé de um café tuga – coincidências?) para um expresso duplo e uma água com gelo e limão. Está um belo dia de Primavera-Verão e sou capaz de ir passear para os jardins e aproveitar para pôr a leitura e a escrita em dia. Trouxe trabalho para casa, é verdade, mas quem consegue resistir a isto? E 1 dia de descanso em 7 é mais do que merecido, certo?

A todas as pessoas que têm perguntado à minha mãe se estou a gostar da nova casa, muito obrigada pela atenção! Só não entendo porque não pedem a minha morada: as cartas e os presentes demoram a chegar, mas chegam! (Para alguém que acabo de constatar que é tímida, estou muito saidinha da casca.)

 

 

domingo, 6 de outubro de 2013

Ek is klein ma getrein!


Agora que estou devidamente instalada — ou, pelo menos, com todos os meus pertences na nova barraca — já estão reunidas as condições para fazer um pequeno resumo destes últimos dias.

Uma vez que a empresa dá 1 dia para quem muda de casa, achei que tinha mesmo de usufruir dele e marquei para a sexta-feira, para ter um fim-de-semana comprido. Mesmo não tendo muita coisa para transportar comigo, foi o melhor que fiz: é domingo e eu ainda me sinto cansada.

Apesar das inúmeras ofertas de ajuda, armei-me em teimosa e decidi fazer tudo sozinha. Havia gente com jipes e carrinhas prontas a ajudar, mas eu achei que 2 bracinhos e um Opel Corsa haviam de dar. E tudo se fez, mas contabilizei 4 viagens entre Pinelands e a cidade!

Não havendo estacionamento mesmo à porta do complexo, deixei o carro o mais perto possível e comecei a levar as malas para a recepção. Os seguranças/porteiros devem ter tido pena de mim (e os meus olhinhos de Bambi nunca falham!) e ofereceram-se para carregar tudo até ao apartamento, ajuda que não recusei. Menos mal!

A primeira impressão foi que o inglês dos seguranças/porteiros é muito superior ao meu, porque foi uma trabalheira para conseguir entendê-los. Mas depois lá percebi que eles comem palavras, mais precisamente os verbos (tipo, as palavras que ditam a acção numa frase): You moving in? You new? You alone? Flat empty or someone there? Anda uma pessoa a estudar inglês desde os 10 anos, a ler Shakespeare, Poe e Julian Barnes na faculdade, e a fazer testes e exames carregadinhos de gramática para isto.

Do elevador até ao meu apartamento, são uns bons minutos de caminhada, acho que dou a volta ao edifício — é o preço a pagar pela vista! E os corredores são em tudo semelhantes ao que vemos nos filmes norte-americanos: portas e portas numeradas, de onde saem inúmeros ruídos, também muito ao género de um hotel. Fazer estes corredores depois de uma ida à discoteca também deve ser bom, com dores nos pés e tal, e se o nível de sangue no álcool estiver no ponto… ui. E se antes eu achava que fazia algum exercício por ir a pé para o trabalho, acho que agora vou caminhar muito mais.

Assim que abri a porta do apartamento, pensei «Bolas, as janelas ficaram abertas desde terça-feira!» Pois, a vista é muito linda e tal mas o ruído do vento de Cape Town não perdoa e parece que me entra pela casa dentro. Os alumínios são também uma bela porcaria, mas isso é coisa que tenho notado desde o dia em que cheguei à África do Sul. Não é que perceba muito do assunto, mas sendo esse um dos negócios da minha família, aprendi a avaliar o material. E se o meu rico paizinho aqui estivesse, era a primeira coisa que fazia: umas belas janelas com vidro duplo, para proteger do som e vento. Mas enfim, pai, fica aqui o apelo: quando vierem de visita, traz umas fitas de material isolante para aplicar nos caixilhos, sim? Até lá, vou ver o que consigo desenrascar, até pode ser que me habitue ao uivar do vento.

Com a primeira leva de malas já em casa, lá me dirigi ao edifício do estacionamento. Oh, que alegria! Estacionamento no 5.º piso, numa verdadeira subida em caracol a fazer lembrar o estacionamento do El Corte Inglès. Bom, é capaz de não ser tão mau, mas ninguém me apanha a fazer aquilo às tantas da manhã, depois de uma noitada na discoteca!!! Especialmente porque é proibido buzinar, tem de ser tudo com sinais de luzes…. Yeah, right! Deve ser por isso que há uma fila de táxis em frente ao complexo e já me estou a ver a deixar o popó em casa em noites de saída.

Parece que me calhou o fim-de-semana mais ventoso dos últimos tempos. Continuo a achar que a Metalagreste faria muito e bom negócio por aqui.

Gosto muito que haja uma loja de conveniência à entrada do complexo: para além de comida e bebida, tem ATM e dá para carregar o telemóvel e comprar electricidade (assunto para outro post, um dia, sobre electricidade pré-paga).

Já avistei alguns vizinhos no elevador: tudo gente nova, a regressar do trabalho com jantar dentro de um saquinho. Mas com 5 pisos, e cerca de 30 apartamentos em cada um, vou demorar uma eternidade até ver a maioria.

O meu apartamento fica num cantinho, só com um outro apartamento ao lado, o que me deixou mais ou menos descansada relativamente a possíveis vizinhos barulhentos. Pois… acho que a criatura mais barulhenta deste piso está mesmo ao meu lado, só não me incomoda muito porque da porta até à sala/cozinha tenho um belo corredor. Gosto da música que de lá sai, mas preciso de lhe ver o focinho para decidir se vai ser uma relação de amor ou ódio.

E por falar em ruído, já disse que o vento de Cape Town arruma o do Sobral a um canto? E que a Metalagreste faria uma fortuna por aqui em marquises e janelas duplas?

O apartamento está mobilado e tem a maior parte do que é essencial, mas os próximos tempos serão de personalização do espaço (na medida dos possíveis, que o estaminé também não é grande e a proprietária não me deixa fazer grandes mudanças). Mesmo assim, e ao fim de 3 dias, já me sinto em casa. Estar sentada no sofá ou na mesa, de frente para a montanha, é verdadeiramente mágico.

Gosto de ter segurança no prédio. No sábado tive a minha primeira visita e a pessoa teve de deixar nome e contactos à entrada, quem ia visitar e em que apartamento, e ficam registadas as horas de entrada e saída. Gosto muito.

Deixaram-me um livrinho com todos os restaurantes da zona que fazem entrega ao domicílio. A encomenda online e entrega da pizza correu muito bem e os preços agradaram-me (Telepizza e Pizza Hut, vocês passaram à História!). Acho que vou ser muito feliz com tanto restaurante tailandês e indiano aqui à volta.

Os três malões de roupa continuam por arrumar. Mãaaaeeeeee! Onde estás tu nestas alturas?

Mesmo com tanta roupa e tanto sapato, e depois de ter rogado 1001 pragas enquanto fazia as malas, não dou 2 dias para me andar a lamentar que não tenho nada para vestir.

E o vento, meu Deus, e o vento? Paaaaaaaiiiiiiiiii! Não queres abrir uma sucursal da Metalagreste por aqui?

Estou cansada e acho que, por esta altura, já estão fartos de tanta conversa de treta, não? Isto é, para quem lê até ao fim! Por isso, e porque fotografias é que é bom, aqui ficam umas (poucas) imagens:
 
 
Ainda em Pinelands.

 
Primeiro round.

 
Isto foi na sexta-feira. É domingo à noite e as malas continuam no mesmo sítio, shame on me!

 
Não gosto de colocar online as fotografias das «minhas» crianças mas é uma excepção (e se as mães quiserem posso retirar esta imagem): depois de anos a decorar os frigoríficos dos outros, está na altura de me ajudarem a decorar o meu, que tal?

 
Compra mais importante do fim-de-semana. Achei que tinha o meu nome escrito.
 
 
 
Ah, e o título deste post? A minha primeira frase em Afrikaans!