quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Das coisas que verdadeiramente interessam (ou de como a crise de valores é quase tão grave quanto a financeira)


 
Esta foi a primeira notícia que ouvi esta manhã, antes de sair de casa.


Pior, há um vídeo amador a passar nos noticiários. Aparentemente, a polícia sul-africana deteve um homem de nacionalidade moçambicana, atou-o às traseiras de uma carrinha oficial e, dessa forma, levou-o (arrastou-o)até à esquadra. Sim, a rastejar pelo alcatrão, macadame, etc. Horas depois, este homem faleceu.
Independentemente da hora do dia, do país ou do continente em que estejamos, é uma história repugnante.

Por isso, custou-me ainda mais ligar o computador e aperceber-me da revolta relativamente a um comentário da «famosa» AGM/Pipoca. Adoro um bom fait-divers de vez em quando, sou ávida consumidora de blogues vários (de muitas áreas), mas tento filtrar aquilo que interessa. A sério, se a tal Sofia fosse uma jovem perfeitamente saudável ou mesmo uma estrela de cinema estaria meio mundo a criticar a AGM? Não, estaria a rir com ela e a tecer comentários ainda mais jocosos. Não estou a defender a moça, que nem a conheço de lado algum, mas não sejamos hipócritas: adoramos falar mal dos outros e não perdemos uma oportunidade para fazê-lo sempre que ela nos surge à frente do nariz.
Pior do que o comentário da AGM/Pipoca em relação à indumentária da Sofia (que me passou ao lado mas parece que ela até já pediu desculpa), é ver toda uma série de aspirantes a Pipocas/bloggers/fashionistas ressabiadas a atirar pedras como se não houvesse amanhã, sem noção da figura ridícula que fazem nos seus blogues, Instagram, FB e afins, quando comentam as fatiotas dos outros ou postam fotos dos pezinhos na areia, da camisola nova, da mala nova — de lojas tipo H & M, Stradivarius, Blanco, etc., ainda que fosse Chanel! — , do livro que estão a ler (será que lêem mesmo?), bla bla.

Ah, e reagiram com 2 dias de atraso, o que diz muito das competências destas meninas para estar em cima do acontecimento.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Weekend Details


Com 3 anos, a Amy, filha dos meus «senhorios», é a criança mais criativa e imaginativa que conheci até hoje: não tem amigos imaginários mas fala uma língua só dela, monta espectáculos sozinha com diversas personagens, adora mudar de roupa várias vezes por dia, dança e canta de manhã à noite (começo a ouvi-la cantar às 6h e pouco)… uma verdadeira estrela e potencial designer de moda (veste os vestidos aos contrário porque não gosta deles «normais»).
No sábado, descobriu como escapar da casa dela e vir até à minha porta das traseiras. E foi uma manhã com muitas pulseiras, fios, unhas pintadas e desenhos. Quando a mãe a veio buscar ao meu estaminé, até a expulsou, fechando a porta na cara da mãe! Pensei muito nas minhas meninas, especialmente a Lara e a Mariana, que tanto gostam de brincar com as minhas pulseiras… que saudades!
Para quem ainda se lembra, ela está a usar pulseiras minhas. Também tem um colar, mas não está à vista.


Mas se eu já não me sentia bem na sexta-feira, o sábado não foi melhor, e o domingo foi mesmo para esquecer!
No que a condições climáticas diz respeito, este último fim-de-semana foi, muito provavelmente, o melhor desde que aqui cheguei. Planos: muitos. A realidade: febre na casa dos 38,5 ºC.

Ainda consegui almoçar no meu terraço da frente, na companhia da Poppy e da Nala.







Mas o calor tornou-se excessivo, até para as cadelas, e aterrei no sofá, tal a quantidade de drogas. Para alguém cuja temperatura corporal ronda os 35,5 ºC, passar dos 38 ºC equivale a delírios… e sonhos, muitos sonhos esquisitos.
Mesmo assim, arrisquei ir trabalhar na segunda-feira e sobrevivi, claro! Assim que entrei no gabinete, uma PA do departamento financeiro veio oferecer uma fatia de cheesecake… Um docinho e uma chávena de café acabado de fazer e foi-se o bicho!

Estou melhor, mãe, mas vou tomar os medicamentos até ao fim, tal como mandaste!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Um Carnaval brasileiro em Cape Town vivido por uma portuguesa


 
Já todos viram as fotografias do Carnaval, mas não podia deixar de partilhar esse momento também aqui no blogue.
Foi no restaurante grego que a Carolina me falou na festinha que a comunidade brasileira ia organizar pelo Carnaval. Confesso que nem ouvi pormenores: por defeito de quem vive o Carnaval de Torres Vedras, a minha cabeça começou logo a trabalhar por causa da máscara. Mesmo num país que não vive nem comemora o nosso Carnaval, eu não podia deixar de me mascarar.

Indicaram-me uma loja que aluga fatos mas, credo!, uma rapariga de Torres Vedras não aluga máscaras!!! Propus-me a ir a uma loja de festas, o único sítio onde me disseram poder haver alguma coisa…
A única máscara completa era de mulher-polícia, coisa que não faz o meu género. Pus-me então a mexer nas fatiotas de crianças e nos acessórios, e o disfarce de pirata começou a compor-se na minha mente. Lá comprei os acessórios (como era de criança, o chapéu não me servia), juntei um lenço, uns corsários pretos e uma t-shirt às riscas e fiz figas para que o conjunto resultasse J Experimentei tudo em casa e fiquei satisfeita — com a vantagem de ter um outfit normal se tirasse o lenço, a pala e a espada!

Claro que não havia muitos mascarados, mas eu estava nas nuvens! Música brasileira, gente gira, boa companhia… só o calor extremo me lembrava que não estava em Torres Vedras! Como foi falado no Facebook, foi um Carnaval muito atípico sem chuva, frio, 1001 camisolas e 37 collants!
O espaço estava apinhado de gente de várias nacionalidades. Conheci um capetoniano, o Leonard, que me disse estar fascinado só de olhar para nós, brasileiros e tuga(s): «Quem me dera perceber o que cantam, deve ser fantástico, a vossa expressão de felicidade é incomparável!»



Acabei por ganhar uns prémios, que compensaram — e muito! — os tostões que gastei na máscara: um porta-chaves do Corcovado, um escapulário e uma massagem de 60 minutos (corpo inteiro)… nada mau, hein!
 
 

Houve ainda uma actuação de um grupo de batuques e fiquei com o Guillaume, a Polyanna e o Erick junto de uma janela até não aguentar mais o calor.
 
 

Não foi a mesma coisa sem as minhas gajas, sem as nossas máscaras malucas, sem o frio, a chuva e as matrafonas, mas foi o possível. Ah, caramba, e mostrei aos capetonianos como se comemora o Carnaval em Portugal!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Lei Seca... ou nem por isso


Desde que cheguei que o vinho tem sido um elemento constante: o meu jantar de boas-vindas foi bem regadinho, o Natal começou com ofertas de whisky logo pela manhã, todas as refeições de convívio no B & B foram com vinho… Ora, até para cuidar de crianças que se deitam às 19:30 me pagam com vinho!
Com isto tudo, foi com imensa estranheza que constatei não haver qualquer pinga de álcool à venda nos supermercados aqui do burgo, NADA. Numa incursão pelo Pick & Pay da Waterfront, fui confrontada com um corredor fechado com grades e cadeado… What?!

Já que fui apresentada como a tuga a quem nem é preciso perguntar se gosta de beber, pareceu-me mais do que justificado esclarecer este dilema.
Ao que parece, Pinelands é uma de 2 dry areas aqui na província, ou seja, a lei proíbe a venda de álcool — e essa é uma das razões pelas quais é um subúrbio tão procurado por famílias e casais reformados com algum dinheiro para gastar. No resto da província, os supermercados estão proibidos de vender álcool a partir das 18:00 de sábado e durante todo o domingo… Lei que, felizmente, não é extensível a bares e restaurantes.

O Peter já me levou de carro ao local mais próximo onde se pode comprar álcool, com a desculpa de que «These are important things you need to know.» No centro comercial Canal Walk há vinho e cerveja com fartura nos supermercados (encontrei garrafas de 2l, upa upa) e até um Pick & Pay Liquor ;-)
Mas comprar vinho não é algo com que vá ter de me preocupar nas próximas semanas. Para além da garrafinha que recebo por cada noite de babysitting [eu é que devia pagar pelo par de horas que passo em frente à TV, à beira da piscina, mas pronto…], o Peter (e a Amanda) presentearam-me com outro rico exemplar desse néctar dos deuses porque, durante 2 dias em que estiveram ausentes, fui a casa deles para dar de comida às cadelas e brincar um bocadito com elas…


O topo do meu frigorífico... O vinho branco está no fresquinho, claro!
 
 
A ver como corre a minha relação com os autores e Ministério moçambicanos, ou corro o sério risco de sair deste país alcoólica!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Hábitos que NÃO vou adoptar # 2



Andar descalça na rua, centros comerciais, lojas…
A primeira vez que o vi foi, surpreendentemente, no V & A Waterfront, o centro comercial da marina, que é bem recente e tem todas as lojas da moda. Estava a entrar num restaurante e vi umas crianças a correr, por ali, descalças. Pensei Meu Deus, estes pais desistiram de domar as crias por uma noite e limitaram-se a deixá-las andar…

No entanto, ao longo das semanas, fui-me apercebendo que este é um hábito transversal a várias faixas etárias. E vivendo eu numa zona relativamente abastada, em que quase todas as moradias têm piscina, jardim, etc., verifiquei que é também transversal a vários estratos sociais.
Tornou-se comum estar na fila do supermercado e ver vários jovens com idade para ter juízo descalços; as crianças, onde quer que estejam, assim que podem, tiram os sapatos; o meu senhorio, que está na casa dos 30, também anda descalço por todo o lado e confessa que há alturas em que se esquece e vai ao centro comercial sem sapatos… Mas, curiosamente — e isto pode gerar surpresa —, não vi nem um único pretinho nestes preparos… só branquinhos, loirinhos, de olho azul.

O Peter diz que todos são criados assim, facto que me foi confirmado pela Fatima, mas acho que a partir de uma certa idade, parece pouco normal fazê-lo fora de casa. São os cães, gatos, esquilos, aves várias; o vento que arrasta poeiras e sujidades; as árvores que largam tudo e mais alguma coisa; a poluição em geral; sei lá.
Está bem que é Verão, mas faz-me espécie. Eu, que nem gosto de dormir descalça… Não, caros sul-africanos, com tanto sapato lindo que há, isso de andar por aí descalça não é coisa para mim!