terça-feira, 10 de setembro de 2013

E 9 meses depois, a cidade.


Sempre foi meu objectivo morar no centro da cidade mas cheguei na pior altura do ano no que toca a alugar casas na Cidade do Cabo. Dezembro e Janeiro são meses de férias, de Verão, é a época alta. E muitos procuram alugar a pessoas que visitam a cidade com esse propósito. Por outro lado, o sul-africano é muito dado a alugar a sua casa por 2 ou 3 meses, período em que estará no estrangeiro, em trabalho, por exemplo; preferem alugar a alguém que pode tomar conta do espaço do que deixar a casa vazia, à mercê de larápios. Isso e um total desconhecimento da cidade e arredores fizeram com que me mudasse para o anexo dos Davis, que também tinham acabado de chegar de Londres.

Eles não me conheciam de lado algum mas houve empatia imediata desde o primeiro minuto. Também deve ter ajudado o facto de ter dito que trabalhava em manuais escolares para Angola e Moçambique: a Amanda, para além de mãe, é terapeuta da fala e tem uma empresa própria, em Inglaterra, que desenvolve a sua actividade em escolas, principalmente. O preço era mais do que apelativo e o facto de ser, literalmente, ao lado do escritório também ajudou.

Foi o melhor que me aconteceu, a vários níveis: vou a pé para o trabalho e tenho a companhia de uma família jovem que nunca me tratou como inquilina mas como amiga e parte da família. Como referi aqui na altura, ofereceram-me um jantar de aniversário e não raras vezes fui convidada para vários jantares; sempre que estão fora, sou eu que tomo conta das cadelas (tendo acesso à casa toda); faço babysitting for free. E as filhotas… Já aqui contei, a Amy é a minha fã número 1.
Com tudo isto, fui adiando a mudança para o centro da cidade. Mas os fins-de-semana em Pinelands começaram a matar-me. Não há cafés com gente nova, solteira. A população é constituída por famílias ou velhotes que vão ao supermercado com os andarilhos. A partir das 18h e pouco já não há gente na rua.

Mesmo estando a 2 passos da cidade, isto começou a consumir-me. Por isso, quando apareceram 2 apartamentos no centro, com os requisitos mínimos, tratei de ir ver. E se perdi o primeiro por uma questão de horas, o segundo já não me escapou… e depois de 2 dias a preencher papelada, é meu por 1 ano. Complexo com segurança 24h, estacionamento, piscina, ginásio, mobilado, cozinha equipada e vistas para a montanha. Não tem varanda, mas enfim… a pessoa habitua-se. O quarto (suite) é pequeno mas a cozinha e lounge têm espaço para reunir amigos, ter gente a dormir no sofá, no chão… Está tudo preparado para receber os meus pais (e outros que por cá queiram aparecer)!

E como foi contar aos Davis? Pois, foi um drama, à semelhança de muita coisa que tem acontecido por aqui. Quando preenchi os papéis para me «candidatar» à casa, uma das milhentas informações pedidas era o contacto do actual senhorio (para futuras referências). Eu lá dei o número de telemóvel, email, etc., mas avisei a imobiliária: Eles não sabem que eu ando à procura de casa, é a primeira vez que estou a «candidatar-me», por favor não lhes telefonem. E não pensei mais no assunto.

Quando, nesse dia, cheguei a casa, quase de noite, já estoirada, veio a família em peso esperar-me ao portão… Vanessa, are you leaving us??????????

Em bom português, se eu tivesse tomates, tinham-me caído ao chão. E fiquei sem reacção, mas com lágrimas nos olhos. Lá me contaram que, do nada, receberam um telefonema a pedir informações sobre a minha pessoa, se era de confiança, se pagava a renda, bla bla. Isto do nada. Eu mal abria a boca, a Amy só gritava e os pais a quererem saber se eu me sentia mal com eles, se faziam muito barulho, se eu estava aborrecida, enfim, o que é que eles tinham feito para eu decidir ir embora sem dizer nada.

E se eu em ambiente profissional sou uma coisa, nestas coisas sou uma atada e choro porque não consigo dizer que não a ninguém. E se em português é mau, explicar em inglês, com receio que alguma coisa seja mal interpretada, é ainda pior.

Lá resumi a coisa da melhor forma possível, reforçando 1001 vezes que a decisão de mudar para a cidade não estava relacionada com eles, de forma alguma, e que esta tinha sido a primeira vez que tinha ido ver um apartamento nestes meses todos. Também não era definitivo: se o apartamento estava no mercado há tanto tempo, era porque a dona era bastante esquisita e selectiva, o mais provável era eu ir acabar na eterna lista dos rejeitados. Mas a Amanda sorriu, de forma confiante, e só disse: It’s yours, believe us.
 
E, de facto, foi muito fácil. A menina sul-africana, que trabalha em Amesterdão, ficou encantada com as referências pessoais e profissionais, informações bancárias e mais que tal, e assinou o contrato em minutos.
No dia seguinte, quando obtive a aprovação, lá falei com os Davis, de forma mais calma… Eles foram impecáveis e perceberam os meus motivos. Nada que eu não esperasse mas não era desta forma que eu queria que eles soubessem…

Hoje, uma semana depois, contaram à Amy que a Vanessa se ia embora… mas isso é matéria para outro post!




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