quinta-feira, 16 de maio de 2013

Da saudade.


Tenho um colega que tem por hábito fazer uma ronda matinal por todos os gabinetes; e todos os dias ouço «Good morning, Portuguese!». Regra geral, os 3 falamos de trabalho ou de assuntos mais ligeiros mas, esta semana, ele disparou o seguinte «Do you miss home?» A F. respondeu de imediato que eu não tinha saudades de Portugal e que ia ficar na África do Sul para sempre (é o que diz a toda a gente, tão querida!).
Já passaram quase seis meses, é claro que tenho saudades de Portugal. Tenho saudades da Ema, da família, dos amigos, da comida da mãe, do ginásio, da minha casa. Mas suporta-se e funciona até como uma força extra para aproveitar aquilo que estou a viver e dar o melhor de mim: quem nos ama, deseja-nos nada menos do que a felicidade. Vir para a Cidade do Cabo foi das decisões mais egoístas que tomei na vida mas, perante todo o apoio que recebi, não consigo deixar de sentir que tenho de ser feliz também por quem me ama.
Gosto muito do que faço e tenho colegas fantásticos; claro que há veneno, como acontece em todas as empresas, e gente com quem não nos identificamos de forma alguma — tenho uma colega que passa pelos corredores e diz Hello a tudo o que é ser vivo, com um tom de voz extremamente irritante e que me tira do sério; hoje, quando nos cumprimentou, confessei à F. que a minha vontade é responder com um Goodbye!  — no entanto, não me posso queixar do ambiente de trabalho… em NADA. Rimo-nos muito, há brincadeiras e desabafos q.b., respeito pelos momentos de concentração, e não raras vezes tenho convites para ir a casa de colegas para jantar. Já conheço maridos, filhos, já pus crianças a dormir e dancei ao som do Justin Bieber só para que não chorassem; já troco livros sobre religião e tupperwares com restos ou novas receitas. A pouco e pouco, começo a ter uma vida. Ajuda muitíssimo estar numa cidade linda, com a qual me identifico bastante e cujo ambiente multicultural me fascina. Já tivemos belos dias de chuva mas a temperatura voltou aos 20 e picos, pelo que nem do clima me posso queixar muito.

As chuvas da Páscoa desencadearam em mim o primeiro grande momento de saudade e tristeza, uma rapariga não é de ferro, caramba. Mas arranjam-se estratégias e todos os expat têm as suas!
Para quem está longe — e com isto digo fora da Europa — acredito que a saudade reveste-se muitas vezes de medo. É isso mesmo, MEDO. Aterroriza-me a ideia de que a Ema se possa esquecer de mim, vivo apavorada com a possibilidade de ela nem querer estar perto de mim quando for a Portugal… quando começou a falar, «tia» foi das primeiras palavras 100% perceptíveis que conseguiu articular. São coisas pequenas mas não há noite em que eu não adormeça a pensar que no dia em que ela botar a vista em mim, daqui a umas semanas, vai a correr para o computador, porque é lá que a tia está.

Há outros medos, naturalmente, não menores, apenas diferentes. Para quem fica, a vida continua: aniversários, casamentos, baptizados, jantares, festas, etc. Novas histórias vão acontecer, os «sobrinhos» vão aprender novas gracinhas, as private jokes de outrora já deram lugar a outras. E eu vou estar com as pessoas e tentar dar seguimento ao que ficou em Dezembro, mas há a forte probabilidade de me sentir deslocada, como uma espectadora ou figurante de um filme em que os actores são os mesmos mas o argumento mudou e ninguém me enviou o guião.
Isto não significa que ando por aqui a chorar pelos cantos. Nada disso. Sei que esta aventura está apenas no seu início e sinto que fui talhada para isto. Mas de vez em quando a cabeça começa a pensar… e agora que começou a contagem decrescente para as férias em Portugal, a ansiedade vai tomando conta desta cabecinha fraca.





Sem comentários:

Enviar um comentário