sábado, 30 de março de 2013

Maputo - Tata, Lourenço Marques! (parte III)


Como já referi, foram 30 anos a ouvir histórias de Lourenço Marques, Boane, Matola, Beira, Bilene (praia) … Maputo era só uma palavra no mapa. Por isso, assim que se confirmou a minha viagem a Moçambique, comecei a praticar o nome actual da capital. Nos livros moçambicanos, o período do colonialismo é associado a conceitos como opressão e escravatura e os Portugueses são retratados da pior forma possível; ora, falar da minha família «moçambicana» e dizer Lourenço Marques em vez de Maputo não me parecia ser o melhor cartão-de-visita!
Por muito que nos preparemos para aquilo que vamos encontrar à saída do aeroporto, é inevitável para o cidadão europeu comum uma certa sensação de choque. Ah, e tal, o que não falta aí são fotos de África, Vanessa! Claro que sim, e o meu trabalho passa por ver fotografias de Moçambique todos os dias. Mas, como referi anteriormente, estar na Cidade do Cabo ou em Lisboa a ver fotografias no computador e pensar «Ah, coitadinhos, que miséria…» não é a mesma coisa que estar no local e verificar a realidade com os nossos próprios olhos.

Até ao centro da cidade, são quilómetros de casas/barracas velhas e sujas, cujas paredes exteriores estão cobertas de publicidade antiga (já não me lembrava de alguns logos!) ou ostentam sinais/indicações de que se trata de um café, um electricista ou um cabeleireiro. As pessoas arrastam-se pelos pequenos corredores labirínticos que separam as casas; outros sentam-se no chão, na rua. Para quem conhece alguns dos bairros problemáticos da Amadora, nem que seja de longe, é um cenário idêntico, mas com uma dimensão gigantesca.
As estradas têm algum alcatrão que se encontra, todavia, em franco estado de deterioração e muito empoeirado. Os buracos são mais que muitos e conduzir nos espaços onde deveriam existir separadores e passeios é uma prática comum. Não existem traços nas estradas (embora existam nas autoestradas exploradas pela África do Sul) mas, caso houvessem, não acredito que os respeitassem… a filosofia que parece reinar é: se a largura da estrada dá para 3 carros, por que razão haveremos de conduzir em 2 faixas? Este trânsito caótico verifica-se no centro da cidade, claro, principalmente nas principais avenidas.

Estava muito ansiosa por conhecer Maputo e não raras vezes as lágrimas caíram-me pela cara. Eu conheci a cidade através dos olhos da minha mãe (avó e tios, também), as minhas «memórias» eram outras e percebo agora o que leva muitos retornados a não querer regressar a Moçambique. Independentemente do que aconteceu, o povo moçambicano não conseguiu sequer manter o que foi construído até 1974, quiçá foi um desprezo consciente e uma atitude destrutiva propositada, como que para apagar o passado colonialista.


 
 

Toda a cidade me pareceu poeirenta, suja, degradada, sem cor, que se move lentamente sob um calor húmido e atmosfera sufocante. No final do primeiro dia, coloquei-me a questão habitual sempre que visito um novo país: «Eras capaz de trabalhar e viver aqui?». A resposta foi rápida: não.
Mas África tem a sua mística e concordo a 200% com a Sofia quando diz que primeiro estranha-se, depois entranha-se. De repente — e muito graças à maravilhosa vista do 20º andar — pude ver verde, muito verde. Água. E comecei a ver a cidade e as suas gentes de maneira diferente.






Caminha-se muito bem pela cidade (apesar da ausência de passeios e dos enormes buracos e montes de pedras). O facto de a Avenida 24 de Julho ter tantas árvores facilitou a deslocação entre as várias reuniões e o escritório e, apesar do passo gigante e rápido do Ruben, pude ir apreciando pequenos pormenores como as fachadas dos edifícios, as lojas, as pessoas. Começamos por ter vontade de tirar fotografias a tudo, qualquer canto se assemelha aos emails que recebemos com imagens de África e das quais nos rimos tanto… Uma «Loja das Damas» com lingerie e cintas penduradas do lado de fora da montra junto a uma Levi’s; jipes Mercedes estacionados junto a chapas velhos e com portas que parecem cair; vendas ambulantes de qualidade duvidosa ao lado de edifícios de escritórios… Os próprios nomes das lojas levam-nos às lágrimas. E se não temos tempo de ir ao supermercado, não faz mal: de telemóveis a pensos higiénicos, de sapatos a mesas de café, tudo se vende na rua… A jantar numa esplanada ou a ver montras, somos constantemente «assaltados» por vendedores de rua e até ao último dia não parei de me surpreender com a vasta oferta dos seus serviços (tive pena de não ver serviços de manicure, como a Sofia me contou!)
Da minha experiência, as pessoas pareceram-me extremamente humildes e educadas. Onde quer que entremos, todos nos cumprimentam; até mesmo na rua as pessoas passam e dizem «Bom dia» ou «Boa tarde». Estranhei até o tratamento dos meus colegas, sempre com «Senhora Vanessa, como está?», «Senhora Vanessa, está tudo bem, graças a Deus.», «Senhora Vanessa, não se incomode, eu levo as suas malas.». Quis dar 2 beijinhos a toda a gente mas alguns assustaram-se, acho eu! Claro que foi apenas 1 semana mas só tenho a dizer que se confirmou a ideia de que é terra de boa gente, sem dúvida, adorei o acolhimento caloroso por parte de todos!

Mesmo com trânsito caótico, edifícios abandonados e pilhas de lixo (os contentores deixam-se de ver, não é exagero), habituamo-nos e deixamos de reparar no menos bom.
É uma cidade lindíssima e sei que o país é muito mais do que Maputo. Mas está longe de atingir os objectivos a que os seus governantes de propõem. A burocracia é assustadora; a corrupção existe, embora menos grave do que em Angola; tudo demora e há sempre 1001 razões para que algo não apareça feito. A «lentidão» é um modo de estar na vida que está enraizado e que lhes corre no sangue. Os Europeus não podem chegar e esperar conseguir mudar tudo num par de meses… nem num par de anos, sequer! Se fosse fácil, já teria acontecido, certo?

E, no meio disto tudo, onde andava a Lourenço Marques da minha família? Apesar do mapa desenhado e enviado pela minha mãe, vi que seria difícil descobrir os spots! Curiosamente, descobri-os graças aos anos de histórias… Ao passar pela Pastelaria Cristal, pensei Acho que a Escola Comercial é em frente… e lá estava ela! Quando me apercebi que estava na Sé, disse logo em voz alta «E a Câmara Municipal fica aqui ao lado!». E quando me apontaram a Assembleia da República, surpreendi os meus colegas de Maputo ao afirmar, inchadíssima, «Onde era o Cinema S. Miguel!» O Ruben olhava para mim, como que a duvidar da minha sanidade — querido chefe, nunca fui e nunca serei sã, como já deu para perceber ao fim de 4 meses! — mas eu estava orgulhosa e feliz por ver que alguma coisa tinha ficado do que ouvi ao longo da minha existência!




 

Porque só fui ao Alto Maé de carro, não tive oportunidade de ver e fotografar devidamente o cruzamento da Avenida 24 de Julho com a Avenida da Tanzânia, onde parece que toda a minha família viveu. E o mais triste é que tive tempo de tirar fotografias aos 3 pontos do cruzamento, excepto ao que corresponde ao lugar exacto onde a minha mãe viveu (vi o que lá está agora, que já não é a vivenda de que me fala, mas não tenho fotografias).
 


 

É para mim muito difícil escrever sobre este aspecto da viagem sem pensar na minha avó e sem que as lágrimas caiam sem que me consiga controlar. Por isso, peço desculpa por não me «esticar» mais… não é fácil e até eu fico sem palavras.


Ficam boas recordações: as vistas, as pessoas, o calor húmido, a hospitalidade, as escolas, os meus pretinhos aos saltos, o contacto com a realidade, o jantar na Matola e a noite de trovoada na esplanada, a 4, a beber cerveja, a ver o SLB, com a sensação estranha de estar em casa. Fica a magia de África. E a promessa de voltar à «minha» terra.
 
 
 

 

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