Já lá vai mais de uma semana, mas a agenda não
me permitiu escrever sobre Maputo mais cedo; além disso, foi bom deixar esfriar
as emoções para que isto não fosse um post
demasiado lamechas!
Quando o Ruben e eu saímos era noite escura
mas pudemos assistir ao nascer-do-sol no lounge VIP do aeroporto da Cidade do
Cabo, com o Guillaume. A conversa estava tão boa que quase tivemos de correr
para o avião. Esqueci-me, contudo, que estamos em África… o voo saiu com mais
de 40 minutos de atraso, claro. O Mia Couto seguia no mesmo voo, mas não me
perguntem se ele mastiga de boca aberta ou fechada ou prefere café a chá porque
não sou dessas coisas!
Era um voo directo, numa espécie de avioneta,
pelo que voámos sempre baixinho e pude ir apreciando a paisagem à medida que
atravessávamos a África do Sul e entrávamos em Moçambique.
Gostaria muito de dizer que aterrar em Maputo
foi o concretizar de um sonho, que vivi um turbilhão de emoções ao colocar o primeiro
pé em solo moçambicano, que tinha o rosto banhado em lágrimas só de pensar na
minha família materna… Isto é a vida real, lamento. E vão perceber o que quero
dizer…
Assim que entramos em território moçambicano,
é-nos pedido para preencher um pequeno papel com os nossos dados e informações
breves acerca da nossa visita/estadia. Como somos pessoas honestas e sem nada a
esconder, colocámos que o objectivo da nossa viagem era «negócios» e indicámos
o hotel em que ficaríamos hospedados. Big mistake! Pediram de imediato o belo
do visto que, claro, nenhum dos três tinha! Depois de uma difícil troca de
palavras com os «oficiais» fronteiriços, lá se concordou em pedir que um dos
nossos colegas locais viesse entregar uma carta da empresa «convidando» os três
estrangeiros a permanecer no país durante uma semana. Pensei cá para mim Até que nem foi difícil, não tarda estamos
do outro lado… Falta dizer que esta carta demorou quase 3 horas a chegar,
mais do que a viagem da Cidade do Cabo a Maputo! Não interessa aqui abordar as
razões da demora, mas viemos a saber que esta treta do visto de trabalho é
aplicada desde Janeiro deste ano, com particular incidência a portugueses,
brasileiros e chineses. Agora imaginem três gatos pingados (2 tugas e 1
brasileiro) em roupa de trabalho, cheios de calor, com alguma fome e sem nenhum
sítio para sentar, sequer. Quase 3 horas em pé, a ver passar malta da Etiópia,
Arábias e afins que, de turistas, pouco tinham! Quando a carta chegou, lá
deixámos 80 dólares (cada um) ao Guebuza e pudemos finalmente entrar no país, à
boleia do colega Sabino.
A minha mãe avisara-me relativamente à estrada
que liga o aeroporto ao centro da cidade. Talvez por isso e porque aqui, na
Cidade do Cabo, aquilo que liga o aeroporto à centro é uma cidade-satélite de
barracas, não fiquei chocada nem surpreendida com o que vi. O maior choque é
perceber que toda a cidade é mais ou menos aquilo que se vê à saída do
aeroporto…
Referi várias vezes – também para não criar
muitas expectativas – que esta era uma viagem de trabalho. A agenda estava
cheia, sem qualquer espaço para passeios ou giros turísticos; além disso, sem
nunca ter estado em Maputo, era difícil ter referências para conseguir
localizar os «meus» espaços. Sabia que a minha mãe e família moraram na Avenida
24 de Julho, onde os escritórios da minha empresa ficam, mas vi logo que não ia
ser fácil.
O resto do dia passou a correr, entre reuniões
e caminhadas sob um calor escaldante. A minha mãe ia sendo actualizada quase ao
minuto da minha localização, e comecei a perceber que estava em «casa»! Falámos
mais tarde, enquanto me deliciava com a vista da baía, e o entusiasmo era
imenso de ambas as partes… Foram 30 anos de histórias sobre Lourenço Marques,
Boane e Matola, histórias de emoções e afectos, de tempos felizes que não vão
voltar; nada está como dantes mas é impossível ficar indiferente quando se
cresceu com esta mística, acreditem!
A vista do restaurante/bar do Hotel Girassol Bahía, edifício mítico da cidade.
E Maputo ficou a saber quem era a Vanessa
quando o João e a Sofia apareceram à porta do hotel, ahah! Entre berros,
guinchos e lágrimas, abracei a Sofia sem acreditar que era real… e ela só dizia
«Não te vou largar mais!». O João assistia a este espectáculo com um sorriso de
orelha a orelha!
Lá seguimos para a Matola, viagem de poucos
quilómetros mas com filas intermináveis. Foi o primeiro contacto sério com a
realidade: trânsito caótico em que a única regra é a lei da selva, filas
gigantescas de pessoas para apanharem os machimbombos* e chapas*… Os machimbombos
vão apinhados e os chapas até levam pessoas que não têm lugar para estar
sentadas: acreditem no que vos digo, há pessoas com o rabo de fora ou com
braços pendurados, naquilo que parece ser um concurso (daqueles que o Júlio
Isidro fazia nas tardes de domingo) para ver quantas pessoas cabem num chapa…
Autocarros da Carris ou metro à hora de ponta no pico do Verão são um luxo e um
paraíso ao pé do que vi.
A Matola é uma cidade junto a Maputo, com mais
habitantes que a própria capital. Era já noite e iluminação pública não é uma
coisa que abunde por aquelas bandas mas, do que pude ver, está degradada, suja,
quase abandonada (de cuidados).
A rua onde eles moram
Ainda fui à padaria com a Sofia mas ficámos por casa o resto da noite, a pôr a conversa em dia. Foi muito bom: estar com amigos, falar português, falar do Sobral, comparar experiências. O Nuno, irmão do João, também estava, ajudando a tornar a coisa ainda mais familiar.
Do que ouvi, não há dúvida de que é uma África
diferente daquela em que vivo: mais lenta, mais dura, mais difícil, mais
húmida! Mas eles estão bem e muito positivos, famílias, no worries! Foi bom perceber que temos a mesma percepção de que esta é
uma experiência que nos muda, que nos faz ver o mundo de outra perspectiva,
relativizamos mais, e que todos deviam vir a África para valorizar mais algumas
coisas que tomamos por garantidas! [Para aqueles que, inchados e convencidos, acham que podem mudar o mundo, ahah, venham a África e voltam para casa no dia seguinte, com o rabinho entre as pernas!]
Foi aqui que dei o abraço-maravilha em nome da
minha família e amigos, um abraço sentido, cheio de calor africano J Espero que tenham gostado da surpresa!
E o pretinho do outro lado da rua a gritar «Eu queria tanto ser essa árvore.» Ponham-lhe um sotaque bem africano e imaginem a minha cara...
Para não nos alongarmos muito, deixo o resto para um outro post... Tata!
* Machimbombo = autocarro de mil, nove e trócópasso, p´ra lá de velho e p´ra lá de apinhado de gente; chapa = carrinha Toyota Hiace a cair de podre, com gente a sair por todos os lados, e música tão alta que a pessoa quando se deita ainda tem o batuque nos ouvidos.


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