E que fui eu fazer a
Maputo que não me deixou tempo para passear?
Nunca falei muito do meu
trabalho (do meu emprego), por ter perfeita consciência de que é demasiado
técnico para ter piada e/ou interesse para a grande maioria das pessoas. Além
disso, a filosofia e a «beleza» que associamos ao manual escolar perde-se muito
quando se trabalha no mesmo, acreditem... mas eu ADORO! [Há malucos para tudo,
que fazer, e eu faço parte do grupo.]
De uma forma genérica,
vim para a Cidade do Cabo para fazer manuais escolares para Moçambique e
Angola. Mas uma coisa é estar sentadinha no escritório, com vista para a
montanha, a conceber um projecto para professores e alunos moçambicanos...
outra é ir a Maputo e entrar numa sala de aula.
Para além de uma reunião
geral que nos tomou quase 2 dias, e em que ficámos fechados no escritório, o
resto do tempo foi passado em reuniões com autores e com directores de vários
departamentos do Ministério da Educação. Para os primeiros anos de
escolaridade, é o Governo quem adquire os manuais para os alunos, daí a
importância de mantermos um contacto regular com as diversas entidades ligadas
ao processo. Apesar de quase não haver passeios nas ruas, estes edifícios estão
em relativo bom estado, a entrada do Ministério da Educação é até bem
modernaça. Por dentro, e apesar de todas as salas terem ar condicionado (foi o
que me safou nestas andanças), é tudo algo obsoleto… Organização e arrumação
não predominam mas isso é lá com cada um! Há computadores e impressoras, claro,
contudo a electricidade vai abaixo regularmente – numa das reuniões, que durou
aproximadamente 40 minutos, contei 5 cortes de energia. Claro que a própria
Internet também tem os seus momentos. A simpatia e disponibilidade das pessoas
compensam tudo isto: o atraso do primeiro dia obrigou-nos a faltar a algumas
reuniões e todos conseguiram arranjar espaço nas suas agendas para nos receber
noutros horários.
Foi extremamente
importante ter a oportunidade de ouvir estas pessoas, saber um pouco mais sobre
o sistema de ensino moçambicano, perceber as diferenças entre aquilo que está
no papel (leis, decretos-lei) e o que é possível fazer no campo (nas escolas,
nas salas de aula). É fundamental encarar isto com a mente aberta e não fazer
comparações com a Europa. Continente diferente, clima diferente, pessoas
diferentes, circunstâncias diferentes, histórias/História diferentes… é claro
que temos realidades diferentes!
Para que percebam alguns
dos traços gerais:
·
Como as
escolas não têm capacidade de resposta para tantos alunos, as aulas são
organizadas em regimes: o nocturno e o diurno (este último com 2 turnos, o da
manhã e o da tarde). Isto significa que há crianças que têm aulas a partir das
18h/19h até às 23h (mais ou menos);
·
As turmas têm
uma média de 50-70 alunos. Nas províncias do Norte, há escolas com turmas de
100 alunos;
·
Nem todas as
salas têm mesas e bancos para todos os alunos;
·
Todos os
alunos têm livros mas única e exclusivamente porque os manuais são comprados
pelo Ministério — a maioria destas famílias não tem poder económico suficiente
para tal;
·
A grande
maioria dos professores tem formação ao nível da 9ª classe (alguns completaram
a 12ª classe). Nos últimos anos, já se tornou mais comum ver professores que
passaram pela Universidade Pedagógica e têm, por isso, mais habilitações;
·
Muitos
professores dão aulas em mais de um estabelecimento de ensino, o que os obriga
a fazer quilómetros. No norte do país ou no interior, os professores não têm
sequer um computador e caso pretendam ter acesso à Internet, têm de percorrer
distâncias por vezes superiores a 50 km;
·
O Português é
a língua oficial mas há 16 línguas nacionais, faladas nas mais diversas
províncias.
Creio que dá para ter uma
ideia… O Ministério da Educação tem disponibilizado muitas verbas, mas há um
caminho muito longo a percorrer. E depois a ironia própria de situações como os
governantes apelarem para a importância da educação e da formação mas os seus
filhos andam em boas escolas privadas ou estudam no estrangeiro…
Por tudo isto, a
expectativa em torno das visitas a escolas era enorme!A primeira escola que visitei fica fora de Maputo. Lá fizemos um troço da via rápida que liga Maputo a Boane e Ressano Garcia, seguido de uns quilómetros, entre vários prédios e moradias, sem qualquer vestígio de alcatrão e com muitos, mas muitos buracos mesmo. Fomos recebidos por uma irmã, que nos falou um pouco mais daquele colégio para meninas da 6ª à 12ª classe. Visitámos as instalações — o edifício é antigo mas encontra-se em razoável estado de conservação. Por ser um colégio privado não pensem em grandes modernices… a sala de informática tem apenas 13 computadores que, tal como a irmã sublinhou, pertencem à pré-história. As meninas têm Educação Física logo pela manhã e podem tomar um duche antes de seguir para as restantes aulas. Nos intervalos, andam pelo recreio, em grupinhos, a fazer os disparates próprios da idade. O uniforme consiste em saia e blusa brancas mas pelos sapatos e acessórios de cabelo percebemos que há meninas que vêm de famílias com algumas posses (mas nada de extravagâncias, atenção). Estivemos numa sala de aula, onde fomos o alvo das atenções, claro: eramos os 2 únicos brancos… as raparigas tão depressa olhavam para o Ruben (um homem, meu Deus!) como para mim, especialmente, por causa do cabelo e dos óculos de sol. Acho que se derreteram quando o Ruben disse «Bom dia!», ahah, e algumas davam saltinhos nos bancos quando, à saída, me virei para trás, pisquei o olho e disse adeus!
Apesar de ser uma escola privada, muitas das alunas estudam ali com bolsas de estudo, e, pelas palavras da directora, percebemos que algumas passam por dificuldades económicas e as suas famílias privam-se de algumas coisas para que as filhas possam ter uma educação «melhor». Deste colégio saem professoras mas também médicas e advogadas. Há claramente um grande enfoque na educação como forma de garantir um futuro melhor.
Confesso que se me escaparam algumas lágrimas… E se aquilo era uma escola privada, o que nos esperava na escola pública que íamos visitar no Alto Maê, em plena capital?
No período da tarde, lá seguimos para a escola primária pública que nos aceitou receber. A própria envolvência da escola é, para um europeu, algo surreal: fora dos muros, há um mercado muito concorrido onde se vende de tudo… de roupa a animais, de comida a carros, you name it! Tudo está ao monte, coberto de pó, pessoas e carros atropelam-se, enfim, outra realidade estranha para nós mas normal para os moçambicanos!
Esta escola cresceu em redor de uma igreja e está em franco estado de degradação (apesar de sofrido obras de remodelação recentemente). Mais uma vez, fomos extremamente bem recebidos pela directora da escola e pelo director pedagógico… e por um batalhão de crianças que nos seguiram e perseguiram por salas e corredores!
Quando me vi rodeada de tantos pretinhos aos saltos, a rir e a gritar «Vi-si-ta! Vi-si-ta!» só me apeteceu agarrar neles e levá-los a TODOS para casa. O coração subiu-me à boca, aos olhos, à cabeça, perante a felicidade estampada naqueles rostos pequenos e sujos. Apaixonada que sou por crianças, fui fazendo festinhas às escondidas mas distribuí paletes de sorrisos e piscadelas de olho que eles acolheram como se de água e comida se tratasse. Pelo ambiente circundante, percebe-se qual a realidade destas crianças, o que torna ainda mais enternecedor o calor com que nos receberam!
Quanto às
instalações, não há palavras que descrevam, confesso. Recreio e campo para
jogos e prática de Educação Física são um só, um só espaço e um só monte de
areia. O edifício principal é enorme, escuro e vazio. Tudo parece coberto de
pó. Vi um único computador, na sala da directora. As salas de aula que visitei
são pequenos pavilhões térreos, com mesas e bancos de madeira escura e um
quadro de ardósia, apenas. Algumas salas não têm porta ou têm apenas um
«esqueleto» da mesma. A biblioteca tem uma tabuleta na porta com essa mesma
indicação mas nada lá dentro, nem um livro, nem uma cadeira. Segundo a
directora, as casas-de-banho são o grande problema daquela escola mas não nos
mostrou onde eram, sequer (nem quis imaginar). Como fui «sequestrada» pelo
director pedagógico, dei uma volta maior pela escola e falei com professoras:
pude ver parte de uma aula (esta turma tinha apenas 40 alunos) e conversar
sobre metodologias, livros, etc… Mesmo num ambiente diferente, as necessidades
e as queixas dos professores são as mesmas em todo o lado, senti-me em casa!
Não fiquei traumatizada, mas sabe Deus (e a minha mãe assistiu via Skype) o que eu chorei em casa, já na Cidade do Cabo.
Tata, amiguinhos, dentro de dias teremos a terceira e última parte desta viagem! [Isto é que é fazer render o peixe, eheh!]
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