domingo, 27 de janeiro de 2013

Por dentro somos todos iguais


O mês que antecedeu a minha partida foi repleto de emoções fortes e momentos agridoces. Mas também ficou marcado pela quantidade de piadas que ouvi relativamente ao facto de vir para um país africano: do cheiro a catinga à fala afectada, acho que ouvi de tudo!
A África do Sul tem particularidades, como qualquer país tem, mas mais ainda no que diz respeito às raças. Berço da humanidade, por aqui passaram os Bantu, Khoisan, Zulu, e inúmeros outros povos; os Portugueses, claro, deixaram a sua marca quando eram um povo destemido e donos do mundo e, depois, através dos madeirenses (sem esquecer os que aqui se refugiaram após o fim do colonialismo); os Ingleses e os Holandeses andaram às turras por causa deste pedacinho de terra; e ainda toda a influência das Índias, Malásia, Médio Oriente, etc. O Apartheid, apesar de ter terminado há muito, deixou marcas que são ainda visíveis. Ou seja, esperava-me um país multicultural, multirracial, multi-sei lá.

Quem pensava que eu vinha aterrar num país africano —com toda a carga negativa que normalmente associamos a este continente — , cheio de pretos, como se tivesse largado uma vida de luxo para embarcar numa missão de voluntariado para salvar este povo... engane-se. Aqui há de TUDO, todas as formas, todos os feitios, todas as cores.

Nos poucos sítios onde já estive — não esquecer que estou a trabalhar, não estou de férias — a maioria é branca, com ar muito nórdico. Onde vejo a maior fatia de pretos é nas caixas de supermercado, nas lojas [mas verifiquei que na Vuitton e na Dior são brancas!], em serviços como bancos ou correios, arrumadores, no MacDonald’s, como empregados de mesa nos restaurantes, empregadas de limpeza... Claro que também os há nos centros comerciais e pelas ruas, mas não são a maioria!
No escritório, por exemplo, há de tudo. Do meu gabinete, vejo passar no corredor brancas loiras ou arruivadas de olhos azuis, pretas com penteados afro, muçulmanas com apenas a cara descoberta, coloured, monhés... tudo.

Este fim-de-semana, por exemplo, fui a uma discoteca e senti-me como se estivesse na Oura ou em Albufeira velha: multidões de gente loira, olhos claros, a falar inglês... as mais novas com vestidos minúsculos, a dançar em cima das colunas; as mais velhas, com roupinhas mais recatadas mas agarradas ao cigarro e à garrafinha de Smirnoff; eles, matulões, com ar de jogadores de râguebi. Tal como a Carol disse, depois de o Roger nos ter tirado uma fotografia «Vanessa, olhando para a foto, parecemos umas pálidas ao pé de ti, que és tão morena...» Sim, eu, morena.
E como me sinto eu com tudo isto? Muito bem, obrigada! Custa-me viver sem os meus produtos para cabelos encaracolados (eheh), mas de resto, ADORO esta diversidade, esta riqueza de que é normal sermos diferentes. Porque, efectivamente, por dentro, somos todos iguais.




PS – Claro que, num país tão imenso, há regiões só com pretos, especialmente no interior, mas a Cidade do Cabo é quase uma cidade europeia, e eu vivo numa zona maioritariamente branca. Tudo o que comento e relato neste blogue reflectem apenas a minha experiência, o que tenho visto desde que cheguei, o que não invalida que outras pessoas tenham opinião diferente ou que eu própria não venha a constatar outras realidades nos tempos vindouros.

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