O mês que
antecedeu a minha partida foi repleto de emoções fortes e momentos agridoces.
Mas também ficou marcado pela quantidade de piadas que ouvi relativamente ao
facto de vir para um país africano: do cheiro a catinga à fala afectada, acho
que ouvi de tudo!
A África do Sul
tem particularidades, como qualquer país tem, mas mais ainda no que diz
respeito às raças. Berço da humanidade, por aqui passaram os Bantu, Khoisan,
Zulu, e inúmeros outros povos; os Portugueses, claro, deixaram a sua marca
quando eram um povo destemido e donos do mundo e, depois, através dos
madeirenses (sem esquecer os que aqui se refugiaram após o fim do
colonialismo); os Ingleses e os Holandeses andaram às turras por causa deste
pedacinho de terra; e ainda toda a influência das Índias, Malásia, Médio
Oriente, etc. O Apartheid, apesar de
ter terminado há muito, deixou marcas que são ainda visíveis. Ou seja, esperava-me
um país multicultural, multirracial, multi-sei lá.Quem pensava que eu vinha aterrar num país africano —com toda a carga negativa que normalmente associamos a este continente — , cheio de pretos, como se tivesse largado uma vida de luxo para embarcar numa missão de voluntariado para salvar este povo... engane-se. Aqui há de TUDO, todas as formas, todos os feitios, todas as cores.
Nos poucos sítios
onde já estive — não esquecer que estou a trabalhar, não estou de férias — a
maioria é branca, com ar muito nórdico. Onde vejo a maior fatia de pretos é nas
caixas de supermercado, nas lojas [mas verifiquei que na Vuitton e na Dior são
brancas!], em serviços como bancos ou correios, arrumadores, no MacDonald’s,
como empregados de mesa nos restaurantes, empregadas de limpeza... Claro que
também os há nos centros comerciais e pelas ruas, mas não são a maioria!
No escritório,
por exemplo, há de tudo. Do meu gabinete, vejo passar no corredor brancas
loiras ou arruivadas de olhos azuis, pretas com penteados afro, muçulmanas com
apenas a cara descoberta, coloured, monhés... tudo.
Este
fim-de-semana, por exemplo, fui a uma discoteca e senti-me como se estivesse na
Oura ou em Albufeira velha: multidões de gente loira, olhos claros, a falar
inglês... as mais novas com vestidos minúsculos, a dançar em cima das colunas;
as mais velhas, com roupinhas mais recatadas mas agarradas ao cigarro e à
garrafinha de Smirnoff; eles, matulões, com ar de jogadores de râguebi. Tal
como a Carol disse, depois de o Roger nos ter tirado uma fotografia «Vanessa, olhando
para a foto, parecemos umas pálidas ao pé de ti, que és tão morena...» Sim, eu,
morena.
E como me sinto
eu com tudo isto? Muito bem, obrigada! Custa-me viver sem os meus produtos para
cabelos encaracolados (eheh), mas de resto, ADORO esta diversidade, esta
riqueza de que é normal sermos diferentes. Porque, efectivamente, por dentro,
somos todos iguais.
PS – Claro que,
num país tão imenso, há regiões só com pretos, especialmente no interior, mas a
Cidade do Cabo é quase uma cidade europeia, e eu vivo numa zona
maioritariamente branca. Tudo o que comento e relato neste blogue reflectem
apenas a minha experiência, o que tenho visto desde que cheguei, o que não
invalida que outras pessoas tenham opinião diferente ou que eu própria não
venha a constatar outras realidades nos tempos vindouros.


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